APÓS TRÊS ANOS
Filho de ex-governador é condenado a 36 anos de prisão por matar ex e namorado com sete disparos de pistola
Patrícia Neves e Nickolly Vilella
Após cerca de 14 horas de julgamento, Carlos Alberto Gomes Bezerra, o Carlinhos, foi condenado pelo Tribunal do Júri nesta sexta-feira (31) – a 36 anos – pelo feminicídio qualificado da ex-companheira Thays Machado e pelo homicídio qualificado de Willian Cesar Moreno. O julgamento ocorreu no Fórum de Cuiabá, mais de três anos após o casal ser morto a tiros em frente a um edifício no bairro Consil.
Os jurados acolheram a acusação apresentada pelo Ministério Público de Mato Grosso, que sustentou que os crimes foram motivados por vingança após o fim do relacionamento entre Carlinhos e Thays. A denúncia também apontou que o ataque foi cometido de maneira cruel, premeditada e sem possibilidade de defesa das vítimas.
Thays e Willian foram assassinados no dia 18 de janeiro de 2023. Conforme a acusação, Carlinhos utilizou uma pistola Taurus calibre .380 para efetuar diversos disparos contra os dois, em plena luz do dia e em uma região movimentada da capital.
Durante o interrogatório desta sexta-feira, Carlinhos apresentou uma nova versão sobre os momentos que antecederam os disparos. Ele afirmou que Thays teria confirmado que estava em um relacionamento com Willian ao ser questionada por ele.
“É sim, estou com ele, por quê?”, teria dito Thays, segundo o relato do réu em plenário.
Carlinhos também alegou que Willian teria mandado que ele deixasse o local, dizendo “vaza, seu babaca”, e ainda o chamado de “corno” antes dos tiros.
O promotor de Justiça Vinicius Gahyva rebateu a declaração e afirmou que essas supostas falas nunca haviam sido mencionadas pelo acusado durante os mais de três anos de investigação e tramitação do processo.
Segundo Gahyva, ele nunca ouviu, leu ou encontrou nos autos qualquer referência anterior às expressões “corno” e “vaza, seu babaca”. Para a acusação, a versão surgiu somente durante o julgamento.
Ao ser questionado pela juíza Mônica Perri sobre o fato de Willian ter sido atingido pelas costas, Carlinhos não respondeu diretamente sobre a dinâmica dos disparos. O réu declarou que não pretendia escapar depois do crime.
“Eu, em nenhum momento, pensei em fugir”, afirmou.
Carlinhos também disse que tentou tirar a própria vida após matar Thays e Willian. Ele relatou ter ingerido cerca de 150 comprimidos e colocado a arma na boca antes da chegada dos policiais.
“A imagem da minha mãe apareceu falando: ‘Filho, não faça isso’”, declarou.
Durante o depoimento, o condenado ainda falou sobre a ex-enteada, filha de Thays, com quem não teve mais contato após os assassinatos.
“Rezo por ela todos os dias”, disse Carlinhos. “Peço perdão para ela todo santo dia”, acrescentou, afirmando que faz o pedido em pensamento.
Denúncia
Na denúncia, o Ministério Público apontou que Carlinhos matou Thays por vingança pelo término do relacionamento. O feminicídio foi qualificado por motivo torpe, emprego de meio cruel e utilização de recurso que impossibilitou a defesa da vítima.
“Agiu o denunciado de forma cruel e covarde, revelando extrema perversidade, ao agredir a vítima com diversos disparos de arma de fogo, descarregando uma pistola semiautomática em área urbana de intensa movimentação de pessoas, em plena luz do dia, no horário comercial de um dia útil”, afirmou o promotor de Justiça Jaime Romaquelli na denúncia.
A acusação também sustentou que o crime contra Thays ocorreu em um contexto de violência doméstica e de menosprezo à condição de mulher. Carlinhos e a vítima mantiveram um relacionamento durante aproximadamente dois anos e chegaram a morar juntos.
Segundo a investigação, desde o início da relação o condenado demonstrava comportamento controlador e possessivo. Ele vigiava os movimentos de Thays, monitorava o telefone celular e acompanhava as atividades dela nas redes sociais.
O Ministério Público relatou que, embora estivesse em um relacionamento abusivo, Thays tinha receio de procurar ajuda policial ou judicial. A vítima acreditava que Carlinhos possuía influência por ser filho de um político conhecido e temia que a situação fosse revertida contra ela.
Thays encerrou o relacionamento em dezembro de 2022. Após o término, conforme a denúncia, Carlinhos intensificou a vigilância por desconfiar que ela estava se relacionando com outra pessoa.
A acusação sustentou que ele passou a monitorar a ex-companheira por meio de ligações e aplicativos de rastreamento e já planejava matá-la.
Perseguição
Em janeiro de 2023, Thays iniciou um relacionamento com Willian. Na manhã do dia do crime, ela utilizou o carro da mãe para buscar o namorado no Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande.
Utilizando os mecanismos de rastreamento aos quais ainda teria acesso, Carlinhos seguiu Thays até o aeroporto, observou o desembarque de Willian e acompanhou o casal durante o retorno para Cuiabá.
Ao perceber que estava sendo seguida, Thays acionou o Centro Integrado de Operações de Segurança Pública e procurou a Central de Flagrantes. Carlinhos, porém, conseguiu fugir antes de ser localizado.
Horas depois, Thays e Willian foram até o prédio onde morava a mãe dela para devolver o veículo. Após entregarem as chaves na portaria, os dois caminharam até a calçada para solicitar uma corrida por aplicativo.
Conforme o Ministério Público, Carlinhos se aproximou abruptamente com o veículo e, sem descer do carro, efetuou vários disparos pela janela contra Thays. A vítima foi atingida inclusive pelas costas.
Enquanto o condenado atirava contra Thays, Willian começou a correr pela calçada para tentar escapar. Carlinhos, segundo a denúncia, realizou uma nova manobra com o veículo, aproximou-se dele e efetuou outros disparos.
O Ministério Público sustentou que a ação foi calculada e surpreendeu as vítimas quando elas estavam expostas na calçada, sem qualquer possibilidade concreta de reação ou defesa.
Com a decisão dos jurados, Carlinhos foi considerado culpado pelos dois assassinatos. A pena será fixada pela juíza Mônica Perri.



