VEJA QUAIS
Candidatos ao Governo de MT apresentam propostas semelhantes em planos de governo
Gustavo Castro
Os seis candidatos que disputam o governo de Mato Grosso em 2026 apresentam diferenças de discurso, ideologia e estratégia eleitoral, mas uma leitura dos planos de governo registrados na Justiça Eleitoral revela uma quantidade considerável de propostas semelhantes. Saúde regionalizada, combate à criminalidade, melhoria da infraestrutura, fortalecimento do agronegócio, geração de empregos, digitalização dos serviços públicos e valorização do funcionalismo aparecem, com diferentes formatos, em praticamente todos os documentos.
A comparação dos programas de Otaviano Pivetta (Republicanos), Wellington Fagundes (PL), Natasha Slhessarenko (PSD), Rafaell Milas (Missão), Maurício Coelho (Mobiliza) e Sargento Laudicério (Agir) mostra que, mais do que projetos completamente distintos, os candidatos disputam espaço apresentando soluções parecidas para problemas que há anos fazem parte da agenda política de Mato Grosso.
Saúde
A saúde talvez seja a área em que mais aparecem propostas semelhantes.
Natasha apresenta uma das formulações mais detalhadas. O plano prevê saúde digital integrada à rede presencial, com acesso à telessaúde e a especialistas para moradores de todas as regiões do estado, além de uma fila única estadual, pública e auditável para consultas e procedimentos.
A candidata também defende a descentralização do atendimento, com especialistas atuando no interior, ampliação de exames e concurso para profissionais da saúde.
Pivetta, por sua vez, aposta na continuidade e ampliação da estrutura regionalizada. Entre as propostas estão novos hospitais regionais, centros de diagnóstico e ampliação do atendimento nos municípios. Durante o primeiro debate da campanha, a saúde apareceu novamente como um dos principais temas de confronto entre os candidatos.
A lógica também aparece nos demais planos: levar serviços para o interior, reduzir a dependência de Cuiabá e ampliar o acesso da população a especialistas são objetivos comuns.
Segurança
O combate às organizações criminosas também atravessa os seis documentos.
Natasha propõe integração das forças de segurança, ampliação da estrutura policial e ações de inteligência. O plano de Laudicério aposta em integração, inteligência e valorização profissional, enquanto Milas apresenta uma agenda mais dura, com a proposta de criação de um presídio de segurança máxima para isolar lideranças de facções.
No programa de Milas, a proposta ganhou até nome próprio: o chamado “Inferno Pantaneiro”, presídio destinado a líderes de organizações criminosas, com celas individuais, bloqueio de comunicação e mecanismos de segurança reforçada. O candidato também prevê ampliar o uso de drones, sensores e satélites no combate ao crime organizado.
A segurança aparece ainda associada à tecnologia nos planos de outros candidatos, com monitoramento por câmeras, integração de bancos de dados, inteligência e atuação nas fronteiras.
Proteção às mulheres
A proteção às mulheres é outro campo em que as ideias se aproximam.
Pivetta propõe integrar o Botão do Pânico ao Vigia Mais MT, ampliar a Patrulha Maria da Penha e a rede especializada, além de medidas habitacionais para mulheres vulneráveis.
Wellington defende a criação de uma Secretaria da Mulher com orçamento próprio, avaliação de risco, Salas Lilás no interior, emprego para vítimas e ações de reeducação de agressores.
Já Natasha propõe habitação provisória e emprego para mulheres vítimas de violência, além de acompanhamento dos filhos de vítimas de feminicídio até a vida adulta.
Laudicério fala em uma rede itinerante de proteção para o interior, moradia emergencial, crédito, qualificação profissional e emprego.
A diferença está na ferramenta escolhida.
Enquanto Pivetta aposta fortemente em tecnologia e estrutura policial, Wellington cria uma estrutura administrativa específica, Natasha combina proteção social e saúde e Laudicério concentra a proposta na interiorização do atendimento.
Agronegócio
Outra coincidência importante está na relação entre produção rural e desenvolvimento econômico.
Os seis candidatos reconhecem, de maneiras diferentes, que o agronegócio é um dos principais motores da economia estadual. A divergência aparece mais na forma de transformar essa riqueza em desenvolvimento, industrialização, emprego e infraestrutura.
Milas, por exemplo, apresentou antes mesmo do início oficial da campanha um discurso centrado em ferrovias, hidrovias, silos, agroindústria, energia mais barata e tecnologia para o campo.
No plano oficial, ele prevê investimentos em logística, industrialização e infraestrutura, além de medidas para transformar a produção agrícola em maior valor agregado.
Natasha também defende que a riqueza produzida pelo agro seja convertida em desenvolvimento social e econômico, ao mesmo tempo em que propõe crédito e assistência técnica para a agricultura familiar.
Laudicério segue caminho semelhante ao colocar “produção” entre os três pilares de seu programa, ao lado de proteção e trabalho. O documento prevê apoio ao agronegócio, agricultura familiar, indústria, infraestrutura, tecnologia e energia.
Infraestrutura
Se existe um tema impossível de ignorar em qualquer plano de governo de Mato Grosso, é a infraestrutura.
Rodovias, ferrovias, pontes, logística e saneamento aparecem em diferentes níveis nos programas.
Natasha propõe pavimentação baseada em critérios técnicos, painel público de obras, substituição de pontes de madeira por estruturas de concreto e um cronograma público para ferrovias e mobilidade.
Milas coloca a logística entre os principais eixos do programa e prevê, entre outras medidas, a duplicação de 400 quilômetros de rodovias.
Laudicério também inclui infraestrutura entre os eixos do plano e prevê acompanhamento de obras, melhoria da infraestrutura urbana e regionalização dos investimentos.
Wellington, por sua vez, vem apresentando uma proposta de governo descentralizado, com administrações regionais para aproximar a estrutura estadual dos municípios.
Governo digital
Outro ponto pouco percebido no discurso eleitoral, mas bastante presente nos documentos, é a modernização da máquina pública.
Laudicério propõe um governo “eficiente, digital e transparente”, com painel público de metas, uso responsável de inteligência artificial, indicadores de desempenho e participação social.
Natasha também defende integração digital dos serviços públicos, transparência e acompanhamento das metas do governo. Seu plano propõe um canal digital único para serviços estaduais e maior integração das bases de dados dos órgãos públicos.
A redução da burocracia também aparece em diferentes programas, principalmente quando os candidatos tratam de empreendedorismo e atração de investimentos.
E a RGA?
No funcionalismo público, a coincidência também é evidente: os candidatos sabem que a política salarial dos servidores será um dos temas sensíveis da eleição.
Wellington assume o compromisso mais específico entre os principais candidatos e promete elaborar um cronograma para quitar o passivo da Revisão Geral Anual.
Pivetta, candidato à reeleição, defende a manutenção da concessão anual da RGA dentro das regras legais e orçamentárias.
Natasha não apresenta uma promessa específica para quitar o passivo, mas fala em negociação permanente sobre remuneração e carreiras.
Laudicério vai além e apresenta em seu plano uma referência técnica de 19,52% de perda acumulada, com uma proposta política de recomposição de 18,38%, condicionada à análise técnica, jurídica, atuarial e fiscal.
O que os planos têm em comum
| Tema | Como aparece nos planos |
|---|---|
| Saúde | Regionalização, especialistas no interior, telemedicina e redução das filas |
| Segurança | Combate às facções, inteligência, tecnologia e integração das forças |
| Mulheres | Proteção contra violência, autonomia financeira e interiorização do atendimento |
| Infraestrutura | Rodovias, pontes, ferrovias, logística e saneamento |
| Agronegócio | Apoio à produção, logística e agregação de valor |
| Emprego | Qualificação, empreendedorismo e atração de investimentos |
| Servidor | RGA, carreiras, valorização e negociação |
| Tecnologia | Governo digital, inteligência, integração de dados e serviços online |
| Interiorização | Descentralização de serviços e investimentos para os 142 municípios |



