Por Cíntia Procópio
Durante muito tempo, quando o assunto era rejuvenescimento, a pergunta principal era o que se podia corrigir. Uma ruga, uma perda de volume, uma flacidez, uma textura irregular. Essa forma de pensar não desapareceu e continua tendo seu valor. Mas a medicina regenerativa trouxe uma pergunta diferente e, na minha visão, bem mais interessante. Como podemos ajudar a própria pele a recuperar parte da sua capacidade de se reparar?
Essa mudança de olhar explica por que terapias como exossomos, PDRN e lipoenxertia com gordura do próprio paciente estão despertando tanto interesse na dermatologia.
Não se trata apenas de preencher espaços ou mudar contornos. A ideia da abordagem regenerativa é agir no ambiente biológico da pele, estimulando processos ligados à comunicação entre as células, à formação de novos vasos, à atividade dos fibroblastos, à matriz extracelular e à reparação dos tecidos.
É uma área fascinante, mas que também pede responsabilidade. Nem tudo que recebe o rótulo de “regenerativo” tem o mesmo nível de comprovação científica. Algumas terapias já reúnem estudos clínicos relevantes; outras ainda estão em fase de investigação e padronização. Saber diferenciar uma coisa da outra é essencial.
Os exossomos são talvez o exemplo mais conhecido dessa nova fronteira. Eles são pequenas vesículas que as células liberam para se comunicar. Carregam moléculas biologicamente ativas e funcionam, de forma simples, como mensageiros capazes de influenciar o comportamento de outras células.
Na dermatologia, eles vêm sendo estudados pelo potencial de participar de processos como regeneração, produção de colágeno, cicatrização, pigmentação e crescimento dos fios. Os resultados são animadores, especialmente quando combinados com procedimentos que estimulam a renovação da pele. Mas ainda existem perguntas importantes sobre origem, processamento, concentração, pureza e padronização dos produtos. Por isso, entusiasmo científico não pode ser confundido com certeza científica.
Outro recurso que ganhou espaço é o PDRN, ou polidesoxirribonucleotídeo, formado por fragmentos de DNA. O interesse médico está principalmente nos mecanismos de reparação dos tecidos.
A ciência descreve sua ação por vias como a ativação dos receptores de adenosina A2A e o chamado salvage pathway, um mecanismo que as células usam para reaproveitar componentes necessários à síntese de nucleotídeos. Essas ações vêm sendo associadas à formação de novos vasos, à modulação da inflamação e à atividade de células importantes para a reparação da pele, como fibroblastos e queratinócitos.
Na prática, isso representa uma mudança interessante de conceito. Em alguns tratamentos, não buscamos apenas acrescentar algo à pele. Buscamos criar condições biológicas mais favoráveis para que aquele tecido responda melhor.
Há ainda uma terceira vertente que considero especialmente interessante. O uso do próprio tecido adiposo do paciente, por meio de técnicas de lipoenxertia autóloga, como o Seffiller.
Durante muitos anos, vimos a gordura principalmente como uma forma de devolver volume. Hoje sabemos que o tecido adiposo é biologicamente muito mais complexo. Além das células de gordura, ele contém células e componentes estromais ligados à vascularização, à sinalização celular e à remodelação dos tecidos. Por isso, a lipoenxertia passou a ser estudada não só pelo efeito de volume, mas também pelo possível papel na qualidade do tecido tratado.
Nessa técnica, uma pequena quantidade de gordura é retirada do próprio paciente, preparada de acordo com o método e depois aplicada nas áreas indicadas. O fato de trabalharmos com um material autólogo, vindo do próprio corpo, é uma das características que tornam essa abordagem tão interessante dentro da medicina regenerativa.
A literatura sobre enxertia de gordura facial já descreve benefícios na reposição de volume e também seus efeitos sobre textura, qualidade da pele e estimulação do colágeno. Os resultados, porém, dependem de fatores como técnica de coleta, processamento, plano de aplicação, vascularização da região e sobrevivência do enxerto.
É justamente aí que vejo uma das transformações mais interessantes da dermatologia atual. Estamos saindo de uma época em que rejuvenescimento era quase sinônimo de corrigir sinais visíveis e entrando em outra, na qual a qualidade e o funcionamento do tecido ganham cada vez mais importância.
Isso não significa abandonar toxina botulínica, preenchedores, bioestimuladores, lasers ou outras tecnologias já consolidadas. Significa ampliar as possibilidades e, principalmente, aprender a combinar recursos de acordo com a biologia, a idade, as necessidades e os objetivos de cada paciente.
Também significa entender que regeneração não é sinônimo de milagre. Nenhuma dessas terapias interrompe o envelhecimento, e nenhuma técnica isolada consegue devolver à pele exatamente as características que ela tinha décadas atrás.
O que a medicina começa a compreender melhor é como favorecer mecanismos naturais de reparação e remodelação e como usá-los de maneira segura, responsável e individualizada.
Como dermatologista, considero essa evolução particularmente estimulante porque ela nos aproxima de um princípio que sempre deveria orientar a medicina estética. Não tratar apenas aquilo que o espelho mostra, mas compreender o tecido que existe por baixo daquela imagem.
Talvez o futuro do rejuvenescimento esteja justamente nessa combinação. Menos obsessão por transformar rostos e mais conhecimento para preservar, reparar e melhorar a qualidade dos tecidos ao longo do tempo.
Cíntia Procópio é dermatologista, especialista em rejuvenescimento com naturalidade.



