Nos últimos dias, alguns casos que aconteceram em Mato Grosso me fizeram parar para pensar em uma questão que não pode mais ser tratada como assunto distante da nossa realidade: o envolvimento cada vez maior de adolescentes com o crime organizado.
Estamos falando de menores apreendidos com drogas e armas, adolescentes recrutados para participar de roubos e até casos em que jovens são usados por facções para cometer crimes graves.
Em Cáceres, por exemplo, um adolescente ligado a uma facção teria matado um homem para quitar uma dívida relacionada a drogas. Em outro caso, um pai foi detido depois de usar o próprio filho adolescente para entregar entorpecentes. Também tivemos adolescentes encontrados com drogas e armas a caminho de cometer roubos.
Isso precisa nos fazer refletir.
Não estou dizendo que adolescente não precisa de proteção. Precisa, e muita. Crianças e adolescentes devem ter acesso à educação, saúde, esporte, oportunidades e uma família estruturada. O Estado precisa estar presente antes que o crime chegue.
Mas precisamos também discutir responsabilidade.
Quando uma facção percebe que pode usar um adolescente para praticar um crime grave e que esse jovem terá um tratamento diferente de um adulto, isso deixa de ser apenas um problema de segurança pública. Passa a ser uma estratégia do crime organizado.
E quem paga essa conta é a sociedade.
Enquanto outros países discutem como responsabilizar menores envolvidos em crimes graves, nós ainda temos dificuldade de avançar em uma discussão séria sobre os limites da nossa legislação. A Suécia, por exemplo, reduziu nesta semana a maioridade penal para 14 anos de idade.
No Brasil, o deputado federal Coronel Assis, de Mato Grosso, é relator de uma proposta que reduz a maioridade penal para 16 anos. O texto já passou pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara e aguarda votação no plenário.
É uma discussão que precisa acontecer sem ideologia e sem paixão política.
Precisamos olhar para a realidade.
A segurança deve ser prioridade. Não adianta falar em desenvolvimento, geração de emprego, saúde e educação se as pessoas não conseguem sair de casa tranquilas, se as famílias têm medo de perder seus filhos para o tráfico e se as facções conseguem recrutar cada vez mais jovens.
Combater esse problema não significa apenas aumentar punições. É preciso prevenir. É preciso investir nas nossas crianças, criar oportunidades, fortalecer as famílias, melhorar nossas escolas e ocupar os espaços onde hoje o crime consegue chegar primeiro.
Mas prevenção e responsabilidade precisam caminhar juntas.
Se as facções já entenderam como explorar as brechas da legislação, o Estado também precisa entender como fechar essas brechas. Não podemos esperar que um adolescente se torne adulto para só então perceber que ele passou anos sendo treinado pelo crime.
A discussão sobre a maioridade penal é difícil. Mas não podemos continuar adiando. Precisamos ter coragem para discutir o que é justo, o que funciona e, principalmente, o que protege a nossa sociedade.
Porque, no final, não estamos falando apenas de números ou de leis.
Estamos falando de vidas.
Mike Maluf é empresário da construção civil, casado e pai de dois filhos.



