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A destruição criativa e o setor público

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A economia de mercado não é um sistema econômico perfeito, mas não há nada melhor do que ela. O motivo para tal constatação é trivial e fartamente comprovado. Somente em uma economia de mercado pode ocorrer o “mágico” processo de destruição criativa.

Por meio desse processo, criam-se novas tecnologias, novos produtos e serviços, novos concorrentes, novos setores inteiros e, por consequência, novos empregos. Pari passu com a criação do novo, simultaneamente há a destruição de processos, de indústrias e de empregos que se tornam obsoletos. Apesar disso, o efeito líquido dessas transformações é que – em média – as pessoas e as nações aumentam seu padrão de vida e ficam mais prósperas.

A singela observação das comodidades e do perfil de consumo dos indivíduos é autoexplicativa. A despeito de toda a retórica populista, enganosa e de pseudo-virtudes, é o lucro o motor da inovação, do dinamismo e do aumento de produtividade, fazendo com que novos empreendedores criem negócios que agregam novas e melhores soluções para os problemas dos clientes/consumidores.

No entanto, nesse Brasil, existem dois mundos, profundamente distintos. Em nível individual e na iniciativa privada, é mandatório se reinventar continuamente, sendo isso factualmente uma questão de sobrevivência. Em ambientes competitivos, as pessoas necessitam se qualificar sistematicamente frente aos novos desafios, aos recursos e às habilidades requeridas, enquanto as empresas precisam inovar em todos os seus processos, a fim de serem melhores que suas concorrentes, entregando produtos de qualidade superior a preços competitivos; somente assim alcançam uma lucratividade superior e sustentável.

No outro mundo, no Reino de Nárnia do Estado verde-amarelo, a vida é muito mais tranquila e improdutiva.

Inexiste qualquer coisa que seja semelhante ao processo de destruição criativa no setor privado. No contexto privado, normalmente, aumentos salariais se dão por conta do mérito, pelo aumento da produtividade e pela criação de valor, algo quase impossível de medir no funcionalismo público.

Não bastasse a carência de avaliação de desempenho e de produtividade, a remuneração na esfera estatal é completamente desconectada do mundo real privado, sem falar nas imorais benesses e penduricalhos existentes.
Embora algumas funções estatais exijam estabilidade para proteger os funcionários de pressões externas, este não deveria ser o caso em todas elas. Essa estabilidade lhes premia com altos salários desconectados de uma efetiva produção.

No mundo real da iniciativa privada, torna-se um imperativo a busca da inovação e da criação de melhores soluções para os clientes, enquanto no funcionalismo público, na sua grande maioria, os serviços entregues são ineficientes e muito mais caros. Embora o processo de destruição criativa seja o vetor da inovação e da prosperidade, ele passa muito longe dos palácios e dos prédios estatais.

O grande Adam Smith dizia que era injusto que toda a sociedade contribuísse para custear uma despesa cujo benefício vai a apenas uma parte dessa sociedade, ou seja, exclusivamente para a parte do Reino de Nárnia. Obviamente, apesar da prestação de serviços públicos ineficientes, esse “meia boca” é sustentado por meio do pagamento de impostos escorchantes pagos pelos contribuintes.

Não há mais como procrastinar; a destruição criativa precisa chegar na esfera pública! Indivíduos e empresas não suportam mais carregar nas costas uma casta privilegiada, remunerada de forma desproporcional ao seu valor.

Na verdade, por erros de políticas estatais, de ordem macroeconômica, atualmente existe dinheiro disponível, com muito pouca produção, causando um aumento do nível de preços e uma queda nos salários nominais. O impacto negativo no mundo privado não tem o mesmo efeito no mundo de Nárnia, que recebe altos salários, benesses e “aumentos automáticos”. Não há dúvidas quanto a essa outra – e nefasta – realidade.

Além disso, o absurdo intervencionismo do Estado auto preservador e de seus “amigos empresários” destrói e corrompe o sistema econômico e o processo de destruição criativa, gerador de melhorias contínuas em nível econômico e social. Uma reforma administrativa verdadeira tem que acontecer, eliminando funções e acabando com a progressão automática de carreira por tempo de serviço e, claro, de salários nababescos. Desempenho deve ser o critério para promoções e para aumentos salariais, tal como ocorre na iniciativa privada.

Os avanços tecnológicos transformaram a forma de viver e de trabalhar das pessoas e organizações com fins lucrativos. As empresas privadas buscam sistematicamente alterar e melhorar seus processos, com o objetivo de continuarem vivas e gerarem melhores e mais baratas soluções para os problemas – funcionais, emocionais e sociais – dos consumidores.

Similarmente, no setor público, a destruição criativa necessita dar os ares da graça, com o intuito de que os processos sejam mais ágeis, automatizados, digitais, mais eficientes e muito mais baratos. Parece-me impostergável.

 

Alex Pipkin é doutor em Administração – Marketing pelo PPGA/UFRGS. É professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul e diretor de Supply Chain do Grupo Vipal; conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS e vice-presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

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