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Um submarino chinês ou agentes da CIA: o primeiro-ministro que foi nadar e nunca mais voltou

“Com licença Tony, quais são as chances de um primeiro-ministro se afogar ou ser comido por um tubarão?” Aparentemente essa foi uma das frases que Harold Holt, primeiro-ministro da austrália, falou ao seu secretário de imprensa, Tony Eggleton, quando este o repreendeu por passar muito tempo nas águas turbulentas do Estreito de Bass, na face sul do continente australiano, no estado de Victoria. Como se fosse uma premonição de seu próprio fim, o político não hesitou em mergulhar de volta no oceano, pois seu maior hobby era nadar e ninguém o impediria de deixar esse prazer.

Em 17 de setembro de 1967, um editorial do jornal The Australian alertou Holt para reduzir a natação, alegando que precisava de uma pausa, o que evidentemente se mostrou suspeito quando ele desapareceu três meses depois. Aos 59 anos, o político estava em boa forma física e tinha uma grande fortuna que acumulou na sua curta mas brilhante carreira, tendo casas de férias em Portsea, Victoria e Bingil Bay, três das zonas mais exclusivas e turísticas do continente.

Holt tornou-se presidente em 26 de janeiro de 1966 com forte apoio do público e dentro de seu próprio partido, o Partido Liberal da Austrália, sendo eleito sem qualquer oposição interna e conquistando o rival Arthur Calwell do Partido Trabalhista. Na campanha, o aspecto que mais os diferenciou foi a promessa de reverter a política australiana branca (White Australia Policy), que proibia a migração de pessoas “não brancas” para a ilha desde 1901. O Liberal, ao contrário do Partido Trabalhista, queria revogar essa norma discriminatória, cumprindo seu compromisso assim que chegou ao poder. Da mesma forma, ele teve o apoio do presidente dos Estados Unidos, Lyndon B. Johnson, que lhe havia pedido soldados para lutar no Vietnã.

Tudo parecia supor que o governo de Holt estava destinado a perdurar, uma vez que se propôs a modernizar o país, prometendo realizar reformas que livrariam a Austrália de “sérios problemas raciais e comunitários”. Mas em uma manhã de dezembro de 1967, apenas algumas semanas após seu segundo aniversário no cargo, ele mergulhou nas águas da praia de Cheviot, a poucos quilômetros de sua casa em Portsea. Segundo ele, queria “dar umas braçadas antes do almoço” e conhecia bem a costa. No entanto, o clima não deve ter sido muito favorável, pois depois de convencer um dos amigos com quem costumava ir, Alan Stewart, ficou na costa devido às ondas intensas, deixando Holt avançar nas águas turbulentas do oceano até desaparecer de vista.

Uma das testemunhas que viram como ele entrou em mar aberto, chamada Marjorie Gillespie, que mais tarde soube pelo Daily Telegraph que ela era uma de suas múltiplas amantes, assegurou que ele foi se afastando e as águas turbulentas o cobriram rapidamente. “A água o engoliu até o ponto em que sua cabeça não era mais visível na superfície, então ele foi embora”, disse a mulher mais tarde às autoridades.

Uma busca impossível

A praia de Cheviot destacou-se entre as outras da zona por ter um histórico notável de vítimas: acredita-se que em anos anteriores tenha ceifado a vida de “dois ou três banhistas”, conforme relatam as crônicas locais. Quando começaram as buscas de helicóptero por Holt, o mar ficou ainda mais agitado, levantando ondas de “dois metros e meio de altura”, segundo o jornal ABC. Logo começou a escurecer e os mergulhadores de resgate comentaram que “era como estar dentro de uma máquina de lavar”, impossibilitando a busca. Depois de algumas horas tentando localizar o corpo do primeiro-ministro, a equipe se deparou com “chuvas torrenciais impulsionadas por um grande vendaval” que frustrou qualquer esperança de encontrar o corpo.

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Aparentemente, enquanto nadava, Stewart pensou ter ouvido a voz de Holt pedindo ajuda. Seu amigo gritou para ele voltar para a praia. “Eu sabia que ele não podia me ouvir”, afirmou no inquérito posterior. “Naquele momento eu sei que ele estava tentando voltar, mas as ondas colossais que estavam lá o impediram. Foi instantâneo, de repente ele estava lá e sumiu. Ninguém podia fazer nada por ele”. Finalmente, em 5 de janeiro de 1968, o inquérito concluiu que Holt havia se afogado acidentalmente. Isso fez com que começassem a surgir teorias da conspiração sobre o desaparecimento, como que ele havia sido sequestrado por um submarino chinês ou que havia sido assassinado pela CIA. Não foi por menos, tendo em conta o assassinato de John F. Kennedy (e tudo o que se seguiu) acontecera cinco anos antes.

Teorias alternativas ao seu desaparecimento

Em primeiro lugar, deve ser negada a ideia de que a agência do serviço secreto norte-americano o teria matado. Basicamente, porque o principal argumento dessa teoria pressupõe que Holt queria retirar seu apoio da administração Johnson para tirar seu exército da Guerra do Vietnã, o que é bastante improvável, já que ao assumir o cargo ele “quadruplicou o número de tropas australianas mobilizadas”, sendo “um grande defensor da guerra”, como afirmou o jornalista Mike Rampton em artigo recente na Mel Magazine.

Outra das teorias alternativas é a apresentada pelo jornalista Anthony Gray (e comentada anteriormente) num livro intitulado O Primeiro-Ministro era um Espião, publicado em 1° de Janeiro de 1976, no qual afirma que ao longo da sua carreira estava servindo ao governo chinês, compartilhando segredos de Estado com Pequim. “Quando ele percebeu que estava prestes a ser descoberto, ele providenciou para que mergulhadores chineses o pegassem secretamente e o levassem a um submarino para viver o resto de sua vida em paz na China”, explica Rampton. O livro foi imediatamente ridicularizado e desmascarado devido à impossibilidade física de um submarino desse calibre se aproximar da praia de Cheviot.

Considerou-se também que sua morte não foi um acidente, mas algo premeditado. Essa é a teoria apresentada por Doug Anthony, um de seus ministros, que chegou a afirmar, muitos anos após seu desaparecimento, que era possível que Holt tivesse tomado a fatídica decisão de cometer suicídio, como conta o historiador australiano David Cannon em um post no Quora, negando essa possibilidade. “Doug tinha fama de ser muito direto, o problema é que nenhum de seus colegas de gabinete na época parecia se lembrar de tal fato, e parece um pouco estranho que ele tenha decidido confessá-lo a um ministro tão jovem que não pertencia ao partido”.

A morte de Harold Holt permanece uma grande incógnita e é possível que, como tantas outras intrigas políticas, nunca seja totalmente resolvida. Sua morte súbita foi atribuída aos tubarões e não ao afogamento, já que ele era um nadador experiente.

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