REPRESENTAÇÃO CRIMINAL
Mesa Diretora leva influencer à Delegacia por violência política de gênero; ele não recua das críticas
Kamila Araújo
Quatro vereadoras da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Cuiabá registraram denúncia formal na Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Cuiabá contra o influencer digital Rafaell Milas de Oliveira, após a publicação de um vídeo no Instagram com críticas classificadas por elas como ofensivas, depreciativas e discriminatórias. As denunciantes são Paula Calil (PL), Katiúscia Manteli (PSB), Michelly de Alencar (União Brasil) e Drª Mara (Podemos).
Nos depoimentos prestados à Polícia Civil, as parlamentares detalham um conjunto de condutas que, segundo afirmam, extrapolam o direito à crítica política e configuram violência política de gênero. Elas relatam que o influencer, por meio do perfil @tudomenospolitica, publicou no dia 9 de fevereiro de 2026 um vídeo direcionado nominalmente às quatro vereadoras, utilizando linguagem depreciativa com foco na condição feminina das parlamentares.
Entre os termos destacados nos boletins de ocorrência estão expressões como “quietinhas”, “videozinho”, “dancinha” e “rostinho bonito”, utilizadas para se referir à atuação política delas. Segundo as declarações, o discurso foi estruturado de forma reiterada para desqualificar a atuação feminina no Legislativo, reduzindo o trabalho parlamentar a práticas consideradas “fúteis” e “irrelevantes”.
As vereadoras afirmam ainda que o influencer declarou que elas “sambam na cara da sociedade” e não exercem trabalho sério, associando imagens retiradas das redes sociais pessoais das parlamentares a esse discurso. Em um dos relatos, consta que ele repetiu diversas vezes a frase “eu odeio quem faz dancinha”, vinculando a expressão diretamente às vereadoras e utilizando os vídeos como instrumento de ridicularização pública.
Insinuações sobre assédio e supostas irregularidades
Outro ponto considerado grave nos depoimentos é a alegação de que o influencer teria insinuado, sem apresentar provas, que as parlamentares teriam conhecimento ou conivência com supostos casos de assédio sexual envolvendo agente público, além de mencionar possíveis transações financeiras suspeitas.
As vereadoras sustentam que tais afirmações atingiram diretamente a honra, a reputação e a credibilidade institucional delas, especialmente por sugerirem omissão deliberada diante de situações graves.
Alcance e repercussão
Segundo os relatos, o vídeo foi publicado em ambiente digital aberto e alcançou milhares de visualizações, além de centenas de curtidas, comentários e compartilhamentos, ampliando significativamente a repercussão do conteúdo.
As parlamentares também afirmam que, ao final da publicação, o influencer incentivou seus seguidores a comentar e compartilhar o vídeo, o que, na avaliação delas, potencializou o dano à imagem pública e intensificou o constrangimento.
Em um dos depoimentos, há menção a episódio anterior, datado de dezembro de 2025, em que o mesmo perfil teria utilizado vídeo extraído das redes sociais de uma das vereadoras para insinuar comemoração de suposto corte no orçamento destinado a políticas para mulheres — o que, segundo a declarante, teria sido uma distorção do contexto original.
Impacto pessoal e institucional
Nos termos colhidos pela autoridade policial, as vereadoras afirmam que o conteúdo não se restringiu a divergência política, mas utilizou comparações e ironias associadas à condição de mulher, reforçando estereótipos e buscando deslegitimar a presença feminina na política.
Elas alegam que o discurso teve potencial de constrangimento público, desgaste político e abalo emocional, além de repercussão negativa junto ao eleitorado e à sociedade.
Três das quatro parlamentares formalizaram representação criminal contra o influencer, enquanto uma optou por não representar naquele momento.
O investigado foi intimado a prestar esclarecimentos na unidade policial. O procedimento segue em fase preliminar e poderá evoluir para inquérito policial, com posterior encaminhamento ao Ministério Público.
Outro lado
Procurado pela reportagem, o influencer reafirmou o teor das críticas e disse que não vê irregularidade em sua manifestação. Segundo ele, a reação das vereadoras seria uma tentativa de silenciar questionamentos políticos.
“Essa atitude, para mim, só confirma o padrão dessas vereadoras. Elas me tratam como um mal social porque critico as ‘dancinhas’, mas enquanto dançam, votam contra a CPI que poderia investigar e até prender um suposto assediador aliado ao prefeito. Dançam enquanto aprovam aumento de privilégios e enquanto votam reajuste de IPTU. A minha crítica é essa. A ‘dancinha’ é o símbolo do escracho. Para elas, eu sou o problema por criticar, mas um suposto assediador não deveria sequer ser investigado?”, declarou.



