VIOLÊNCIA
Morte de servidor em ação da PM ocorre em cenário de avanço da letalidade policial em MT
Nickolly Vilela
A morte do servidor público Valdivino Almeida Fidelis, de 58 anos, durante uma ação da Polícia Militar em Cuiabá, acontece em um contexto de avanço da letalidade policial em Mato Grosso e no Brasil.
O caso ocorre num momento em que os confrontos envolvendo agentes de segurança passaram a ocupar espaço cada vez maior nas estatísticas de mortes violentas do país. Em Mato Grosso, só no mês de maio, em um intervalo de duas semanas, foram ao menos 9 mortes.
Dados do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o último divulgado, mostram que 6.243 pessoas morreram em decorrência de intervenções policiais em 2024 no Brasil — o equivalente a 17 mortes por dia. A taxa nacional chegou a 2,9 mortes por 100 mil habitantes.
Mais do que um indicador isolado, o número revela uma mudança no peso da atuação policial dentro da violência letal brasileira. Em algumas cidades do país, mais da metade das mortes violentas intencionais já é provocada por policiais, segundo o levantamento.
O fenômeno não se distribui de forma homogênea. Enquanto estados do Sudeste apresentaram queda nas taxas nos últimos anos, regiões como Norte, Nordeste e Centro-Oeste seguem concentrando indicadores elevados de violência letal e de uso da força policial.
O perfil das vítimas ajuda a desenhar um padrão nacional. O Anuário mostra que 79% das vítimas de mortes violentas intencionais no Brasil são negras e 91,1% são homens. Quase metade tinha até 29 anos. Embora o caso de Valdivino fuja da faixa etária predominante registrada nas estatísticas, ele se soma a um cenário em que pessoas negras seguem super-representadas entre os mortos em ações policiais.
O avanço das mortes decorrentes de intervenção policial também passou a atingir adolescentes de forma mais expressiva. Em 2024, 14% das mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes tiveram autoria policial no Brasil. O dado aparece no relatório como um dos sinais de alerta sobre o aumento do uso da força letal em operações de segurança pública.
Ao analisar o crescimento desses índices, os pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública associam o cenário à ausência de mecanismos uniformes de controle da atividade policial, à fragilidade na padronização de protocolos e à baixa transparência na investigação das ocorrências envolvendo mortes em ações policiais.
O debate sobre câmeras corporais, controle externo e revisão dos modelos de abordagem voltou ao centro das discussões nacionais diante da escalada desses números.
A repercussão da morte de Valdivino ocorre justamente nesse ambiente de tensão crescente entre discurso de endurecimento na segurança pública e cobranças por maior controle sobre a atuação estatal.
O caso agora passa a integrar uma série de episódios recentes que ampliaram o debate público sobre o uso da força por agentes de segurança no Brasil.


