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ESTUDO UNEMAT

Poluição de queimadas impõe gasto milionário ao SUS na Amazônia e Cerrado, mostra estudo de MT

Muvuca Popular

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A poluição atmosférica provocada por queimadas e incêndios florestais na Amazônia Legal e no Cerrado setentrional gera um impacto financeiro médio anual de aproximadamente R$ 17,6 milhões aos cofres do Sistema Único de Saúde (SUS). A revelação consta em um estudo epidemiológico ecológico retrospectivo desenvolvido por pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), que analisou os custos das internações hospitalares associadas a doenças cardiorrespiratórias entre os anos de 2010 e 2021. O diagnóstico ganha contornos de urgência diante dos alertas meteorológicos para o segundo semestre de 2026, que preveem o retorno do fenômeno climático El Niño.

A metodologia empregada baseou-se nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o cálculo de frações atribuíveis (FA). Cruzando microdados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/DataSUS) com dados de exposição ao Material Particulado fino (PM2,5) obtidos pelo Copernicus Atmosphere Monitoring Service (CAMS), os cientistas conseguiram isolar e quantificar a parcela de internações causadas especificamente pela inalação da fumaça oriunda da queima de vegetação.

Os resultados demonstram que os maiores custos financeiros estão concentrados nos municípios situados no chamado Arco do Desmatamento, faixa territorial onde a fronteira agrícola avança sobre a floresta e as queimadas humanas são mais intensas.

Na análise histórica da série temporal, o ano de 2010 registrou os índices mais severos: 18,5% dos 1.134 municípios avaliados apresentaram frações atribuíveis acima de 10%. Entre as cidades com maior impacto proporcional na saúde pública destacam-se as mato-grossenses Vila Rica (35% das internações atribuídas à poluição), Confresa (33,5%), Porto Alegre do Norte (32,9%) e Canabrava do Norte (32%), além de Santana do Araguaia, no Pará, com 34,9%.

Externalidades e a conta oculta do desmatamento

Sob a perspectiva econômica defendida no estudo, os gastos do SUS representam uma “externalidade negativa”. Trata-se de um modelo de exploração de capital natural no qual os agentes promotores do desmatamento e das queimadas ilegais se beneficiam economicamente, enquanto os custos sociais e de saúde são transferidos para o Estado e para as populações marginalizadas.

A poluição por PM2,5 (partículas ultrafinas capazes de penetrar profundamente no sistema respiratório e atingir a corrente sanguínea), está diretamente associada ao agravamento de asma, pneumonia, bronquite e acidentes vasculares. Dados científicos consolidados apontam que um incremento de apenas um desvio-padrão na concentração desse poluente provoca um aumento imediato de 1,5% nas hospitalizações mensais por doenças respiratórias na Amazônia.

Alerta climático: O fator El Niño em 2026

A publicação da pesquisa da Unemat coincide com um momento de forte preocupação climática. Uma nota técnica conjunta emitida pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) e Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) confirma que há uma probabilidade superior a 80% de estabelecimento da fase positiva do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS) a partir do segundo semestre de 2026.

O El Niño promove o aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, alterando drasticamente o transporte de umidade e reduzindo as chuvas nas regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil. Historicamente, esse bloqueio atmosférico acentua os períodos de estiagem, seca prolongada e favorece a propagação de incêndios florestais de grandes proporções.

Mato Grosso tem um histórico recente dramático sob o efeito de extremos climáticos. Se a última década (2016–2026) teve em 2020 o seu pior ano em volume de fogo (quando o Pantanal teve 30% de sua área consumida), o ano de 2024 registrou a maior seca da história recente do Estado, liderando o ranking nacional com mais de 13,6 mil focos de incêndio em apenas 30 dias durante o mês de agosto.

Embora o ano de 2025 tenha apresentado uma recuperação histórica, com redução drástica de até 77% nos focos devido a condições de chuva favoráveis e ao reforço na fiscalização ambiental, a chegada do El Niño no final de 2026 coloca as autoridades de saúde e de meio ambiente em regime de atenção.

A valoração econômica ambiental apresentada pela Unemat serve, fundamentalmente, como subsídio técnico para a formulação de políticas públicas urgentes. Os pesquisadores concluem que, ao demonstrar em valores monetários o custo da fumaça na saúde, o estudo fornece dados para que gestores planejem ações preventivas integradas, combatendo as causas da degradação ambiental para evitar o colapso financeiro e assistencial das unidades de saúde nos municípios da Amazônia e do Cerrado.

Serviço

Leia a pesquisa completa

O artigo científico “Custos das hospitalizações como impacto da poluição atmosférica por queimadas e incêndios florestais na Amazônia Legal e Cerrado setentrional no Brasil (2010-2021)” está disponível na íntegra no portal oficial da revista Saúde em Debate.

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