NEM GOVERNO E NEM SENADO
Derrotado, Jayme chora, denuncia convenção “desonesta” e ataca desleais
Patrícia Neves e Renato Ferreira
Após receber apenas 19 votos e ser derrotado na convenção estadual do União Brasil, o senador Jayme Campos chorou, agradeceu e desabafou sobre o processo que “classificou como desleal”. De cabeça erguida, como fez questão de destacar, ele citou que a disputa não foi transparente nem republicana e atribuiu o resultado à atuação de um “rolo compressor” sustentado pela força do poder.
Ao iniciar seu discurso, Jayme afirmou que participava de um processo democrático e que respeitaria a decisão da maioria. O reconhecimento do resultado, porém, foi acompanhado de uma das críticas mais contundentes feitas durante toda a convenção.
“Estou aqui com a minha cabeça erguida, certo de ter participado de um processo democrático, que é o que todos nós queremos e pretendemos neste país: a plena democracia. Entretanto, eu vou fazer um pequeno desabafo”, iniciou.
Na sequência, o senador afirmou nunca ter presenciado, ao longo da própria trajetória política, uma convenção conduzida da maneira como, segundo ele, ocorreu dentro do União Brasil. Jayme lembrou que já disputou eleições para prefeito, governador e senador e usou a experiência acumulada em seis mandatos para sustentar a gravidade da acusação.
“Eu nunca vi, na minha vida e na minha história política, ao longo dos seis mandatos que tive, disputando eleições de prefeito, governador e senador, uma convenção que fosse produzida de forma tão draconiana, ou seja, desigual e desonesta”, declarou.
Apesar da crítica, Jayme afirmou que aceitava o resultado por entender que a maioria dos convencionais havia decidido apoiar uma possível coligação com outra legenda. O senador mencionou a fé e disse acreditar que a decisão deveria ser respeitada, ainda que contrariasse o projeto de candidatura própria que vinha defendendo.
“Eu entendo que isso acontece porque sou muito fiel a Deus. Deus, na sua infinita vontade, quis decidir que a maioria dos convencionais ou delegados partidários apoiasse essa possível coligação com outra agremiação partidária, e eu respeito”, afirmou.
O senador ressaltou que não faz política por imposição e disse rejeitar métodos baseados na força, na pressão ou em decisões empurradas de cima para baixo. Segundo ele, a atuação política deve ser sustentada pelo respeito ao eleitor, especialmente às pessoas mais humildes que confiaram nele ao longo da vida pública.
“Eu não faço política na base do forte, na marra, empurrado goela abaixo. Eu faço política respeitando o povo, sobretudo aquele cidadão mais humilde, aquele cidadão que confiou em mim durante toda a minha vida pública e ao longo de seis mandatos”, disse.
Jayme afirmou que deixava a convenção tranquilo e com o dever cumprido por ter colocado o próprio nome à disposição do partido. Ele sustentou que deu sua contribuição ao debate interno e que estava preparado para disputar o Governo de Mato Grosso.
“Saio desta convenção tranquilo, com o meu dever cumprido e tendo dado a minha contribuição, colocando o meu nome para que pudesse disputar uma eleição de governador”, declarou.
Embora tenha reconhecido a vitória do grupo adversário, o senador indicou que a decisão ainda dependeria dos procedimentos formais da federação partidária. Na fala, ele observou que o apoio à coligação ainda não estava definitivamente formalizado, mas reforçou que respeitaria a escolha feita pelos convencionais.
“Se os convencionais quiseram baixar o coro e apoiar outra possível coligação, mesmo não tendo nada finalizado aqui, nós temos que respeitar”, afirmou.
Jayme também agradeceu aos companheiros que o apoiaram durante a disputa e declarou que jamais esqueceria aqueles que permaneceram ao seu lado. O senador afirmou que a lealdade seria retribuída e garantiu que não abandonaria aliados depois da derrota.
“Quero dizer publicamente da minha gratidão eterna, uma gratidão que jamais esquecerei, a todos aqueles companheiros e companheiras que me incentivaram durante esse processo. Serei grato eternamente. Fiquem certos de que não abandono companheiro na beira da estrada”, afirmou.
Ao defender a própria trajetória, Jayme disse fazer política com lealdade, honra e respeito. Segundo ele, sua história pública não poderia ser ignorada, principalmente diante das sucessivas vitórias eleitorais acumuladas ao longo dos anos.
“Faço política com lealdade, com honra e sempre respeitando as pessoas deste Estado. A minha história precisa ser ouvida. Ninguém ganha as eleições que eu ganhei por acaso”, declarou.
O senador também sustentou que teria condições de vencer a disputa pelo Governo de Mato Grosso em 2026, caso tivesse recebido o aval do partido para concorrer. Em sua avaliação, a candidatura própria seria competitiva e poderia sair vencedora nas urnas.
“Se eu disputasse a eleição, tenho certeza de que ganharia a eleição em outubro de 2026”, afirmou.
A partir desse momento, o discurso assumiu um tom ainda mais duro. Jayme afirmou que a derrota ocorreu porque prevaleceu um “rolo compressor” e questionou a lisura da disputa interna. Ele negou que a votação tenha ocorrido de forma tranquila, transparente ou republicana.
“Mas prevaleceu o famoso rolo compressor. Prevaleceu. Não foi uma eleição tranquila. Não foi uma eleição transparente. Não foi uma eleição republicana”, disparou.
Para o senador, o resultado refletiu diretamente a utilização da estrutura de poder. Jayme afirmou que acordos teriam sido firmados de maneira reservada e acusou o grupo adversário de articular votos durante a madrugada.
“Nada mais foi do que a força do poder do Estado, com acordos feitos nas caladas da noite”, declarou.
Em um dos trechos mais doloridos e agressivos da fala, Jayme afirmou que a pressão teria sido direcionada a pessoas consideradas mais frágeis dentro do partido. Segundo ele, alguns convencionais teriam transformado mandatos e posições políticas em instrumentos de negociação.
“Foram buscar as pessoas mais fracas, aquelas que muitas vezes não têm personalidade, não têm dignidade, pessoas que fazem de qualquer mandato ou de quem quer que seja um instrumento, um formato de negócio”, afirmou.
Na sequência, o senador passou a falar de si mesmo em terceira pessoa e elevou o tom ao afirmar que jamais negociaria a própria dignidade. A declaração foi apresentada como uma resposta direta ao método que ele disse ter sido utilizado para derrotá-lo.
“Jayme Campos jamais vai negociar. Jayme Campos jamais vende a sua dignidade”, declarou.
Ele acrescentou que permaneceria fiel à imagem construída durante toda a vida pública e também como cidadão. Jayme afirmou que não mudaria a postura por causa de uma derrota interna e reiterou que continuaria agindo de acordo com os princípios que diz ter defendido ao longo da carreira.
“Jayme Campos será sempre esse homem que foi durante toda a minha vida pública, seja no exercício dos cargos ou também como cidadão brasileiro”, afirmou.
Após as críticas, o discurso mudou de tom e passou a ser marcado pelos agradecimentos pessoais. Jayme dirigiu palavras ao irmão, o ex-governador Júlio Campos, a quem agradeceu pelo apoio durante a disputa.
“Feliz é o cidadão que tem um irmão, que tem uma mulher e que tem companheiros”, disse.
O momento mais destacado, porém, ocorreu quando Jayme agradeceu ao deputado estadual Dilmar Dal Bosco. Durante a convenção, Dilmar fez uma defesa enfática da candidatura própria e acusou a direção do União Brasil de trabalhar contra o próprio partido.
Ao mencionar o deputado, Jayme afirmou que, embora Dilmar não fosse integrante da família, passaria a ser considerado como um irmão. Ele destacou a coragem, a seriedade e a lealdade do parlamentar no enfrentamento interno.
“Não é do meu sangue e não é da minha família, mas, a partir de hoje, a partir deste último dia, eu o tenho na conta como se fosse um irmão. Valoroso, corajoso e sério”, afirmou.
Jayme disse que já respeitava Dilmar, mas que a conduta adotada durante a convenção fez com que essa admiração aumentasse. O senador citou especialmente a coerência partidária e a forma como o deputado tratou os aliados.
“Quero demonstrar publicamente a minha gratidão a você. Fique certo de que tem aqui uma pessoa que o admira muito. Eu já tinha respeito e passei a ter muito mais respeito por Vossa Excelência, pela sua forma coerente, partidária e pela maneira como respeita os seus aliados políticos”, declarou.
A homenagem foi feita também em nome dos familiares. Jayme citou a esposa, a ex-prefeita de Várzea Grande Lucimar Sacre de Campos, as filhas, os demais filhos e a neta que acompanhava a convenção.
No encerramento, o senador se emocionou ao mencionar o filho Jayme Campos Filho, conhecido como Jayminho, que morreu em 2021. Ao agradecer a Dilmar Dal Bosco, afirmou acreditar que a gratidão também era compartilhada pelo filho “lá do céu”.
“Falo em meu nome, em nome da minha mulher, Lucimar, das minhas filhas, dos meus filhos, da minha neta que está aqui e, tenho certeza, do meu filho, lá do céu”, concluiu.
O discurso marcou o fim de uma disputa interna conduzida durante semanas e expôs publicamente o tamanho da ruptura dentro do União Brasil. Mesmo ao reconhecer a derrota, Jayme deixou claro que não considerava o processo legítimo na forma como foi construído e saiu da convenção acusando aliados do próprio partido de usarem pressão, poder e acordos reservados para impedir sua candidatura.



