CRIME EM 2023
Defesa de Carlinhos critica “cerceamento” e não descarta deixar júri novamente; réu está com sarna
Patrícia Neves e Nickolli Vilella
O advogado Elson Marcelino da Silva Júnior, responsável pela defesa de Carlos Alberto Gomes Bezerra, o Carlinhos, voltou a criticar a condução do processo e afirmou que poderá deixar o plenário novamente caso considere que as garantias previstas no Código de Processo Penal não sejam respeitadas. A declaração foi feita nesta sexta-feira (31), antes da retomada do julgamento pelo assassinato de Thays Machado e Willian Cesar Moreno, em Cuiabá.
Segundo o defensor, a equipe teve acesso somente às 16h de quinta-feira (30) ao vídeo contendo a decisão proferida pela juíza Mônica Perri durante a sessão anterior do Tribunal do Júri, realizada no dia 21 de julho. Para Elson, a demora dificultou a apresentação de recursos e comprometeu o exercício do contraditório.
“Beira o bizarro. Tivemos uma sessão de julgamento, a defesa fez um requerimento por 15 minutos e somente ontem, às 16h, tivemos acesso à decisão da magistrada. No Tribunal do Júri, o requerimento é oral e a magistrada precisa fundamentar a decisão de forma oral”, afirmou.
O advogado explicou que a defesa possui prazo para questionar eventuais omissões ou contradições nas decisões judiciais, mas sustentou que a entrega tardia do material inviabilizou a adoção das medidas dentro do período adequado.
“Desde o dia 21, que foi a data do júri, estávamos aguardando esse documento, esse vídeo. Novamente foi entregue em cima da hora, cerceando a defesa e não permitindo o direito de recurso e de trazer o contraditório sobre os fatos”, declarou.
Elson também comentou um relatório elaborado por profissionais da unidade prisional sobre o estado de saúde de Carlinhos. Segundo ele, o documento foi produzido a pedido da magistrada e confirma que o réu realiza acompanhamento médico e psicológico, além de utilizar medicamentos. Ele citou ainda que Carlinhos está com sarna humana (escabiose).
O defensor afirmou que Carlinhos enfrenta problemas de saúde decorrentes das condições do sistema penitenciário, incluindo alterações na pele. Ele rebateu ainda comentários de que o acusado estaria em uma situação confortável dentro da prisão.
“Não existe nada disso. Foi atestado por médico da unidade prisional, não a requerimento da defesa, mas da magistrada, a situação de saúde dele e os acompanhamentos que vem fazendo. O sistema carcerário é defasado e precário e isso gera diversas comorbidades”, disse.
Questionado sobre os recursos apresentados ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso e ao Supremo Tribunal Federal, Elson afirmou que ainda não houve uma análise definitiva do mérito. Segundo ele, apenas os pedidos liminares foram rejeitados.
A defesa também contesta a intimação da Defensoria Pública para acompanhar o julgamento. De acordo com o advogado, a instituição alegou não possuir tempo hábil para preparar a defesa e questionou a legitimidade da própria convocação.
Elson sustentou que, antes da nomeação de um defensor público, o réu deveria ser consultado para decidir se pretende constituir um novo advogado ou aceitar a assistência da Defensoria.
“Não existe legitimidade nessa intimação. Primeiro é necessário intimar o réu para que ele constitua um novo defensor ou aceite a nomeação. Não pode ser imposto da forma como ocorreu. Você não pode tirar da pessoa o direito de escolher a própria defesa”, argumentou.
Ao ser perguntado se deixaria novamente o plenário, o advogado rejeitou o termo “abandono” e afirmou que permaneceu no Fórum durante a sessão anterior. Segundo ele, a decisão dependerá das respostas da magistrada aos requerimentos que serão apresentados pela defesa.
“Da vez passada, eu não abandonei o plenário. Eu almocei aqui e fui o último a sair. Apenas manifestamos que faríamos ou não o júri diante das condições apresentadas. Só vou conseguir saber depois que fizer os requerimentos e verificar se a magistrada vai responder e fundamentar as decisões”, declarou.
O defensor, entretanto, não afastou a possibilidade de interromper novamente a participação no julgamento.
“Não é como eu quero, é como o Código prevê. Caso isso não seja respeitado, não vejo impedimento para que eu deixe a sessão. Cada profissional analisa o processo e julga a situação à sua maneira”, concluiu.
O crime:
O Ministério Público do Estado de Mato Grosso denunciou Carlos Alberto Gomes Bezerra por feminicídio qualificado contra Thays Machado e homicídio qualificado contra Willian Cesar Moreno. De acordo com a denúncia, o feminicídio foi cometido por motivo torpe (vingança pelo término do namoro), de forma cruel e impossibilitando a defesa da vítima. “Agiu o denunciado de forma cruel e covarde, revelando extrema perversidade, ao agredir a vítima com diversos disparos de armas de fogo, descarregando uma pistola semiautomática em área urbana de intensa movimentação de pessoas, em plena luz do dia, no horário comercial de um dia útil”, narrou o promotor de Justiça.
O homicídio também foi qualificado na denúncia por motivo torpe, emprego de meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima Willian Cesar Moreno.
Entenda o caso – Conforme apurado durante a investigação policial, Carlos Alberto Gomes Bezerra manteve um relacionamento amoroso por cerca de dois anos com a vítima Thays Machado, chegando a morar com a vítima. E, desde o início, ele se mostrou controlador e possessivo por vigiar cuidadosamente cada movimento dela, incluindo o telefone celular e as redes sociais.
Embora “estivesse inserida num relacionamento explicitamente abusivo, a vítima não encontrava forças para rompê-lo e buscar auxílio pelas vias policiais e judiciais disponíveis, pois entendia que, pelo fato de o denunciado ser filho de político de renome, tinha ‘costas quentes’, havendo risco, inclusive, da situação ser revertida contra ela”.
Em dezembro de 2022, Thays rompeu o relacionamento. Desconfiado de que ela estava com outro, o denunciado “passou a vigiá-la mais intensamente ainda, monitorando-a a todo tempo através de ligações, aplicativos de rastreamento, já planejando a sua morte”.
Em janeiro de 2023, ela iniciou novo relacionamento com Willian Cesar Moreno. No dia 18 de janeiro, Thays foi com o carro da mãe buscar o namorado no aeroporto. Utilizando os mecanismos de rastreamento a que tinha acesso, Carlos a seguiu até Várzea Grande, acompanhou o desembarque do namorado, e seguia o carro na volta quando foi percebido pelo casal. A mulher ligou para o Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (Ciosp), registrou o caso na Central de Flagrantes, mas Carlos conseguiu fugir.
Na mesma data, durante a tarde, Thays e Willian foram até o prédio da mãe dela para devolver o carro. Depois de deixar as chaves do veículo da mãe na portaria do prédio, Thays e Willian caminharam até a calçada na frente do edifício para chamar um Uber.
“No momento em que viu Thays e Willian na calçada, Carlos aproximou-se abruptamente com o veículo e, de dentro do carro mesmo, pela janela, efetuou diversos disparos com a arma de fogo que possuía (uma pistola Taurus, .380) em direção a Thays, inclusive pelas costas. (…) Enquanto Carlos efetuava os diversos disparos em direção da vítima Thays, Willian começou a correr rapidamente pela calçada tentando distanciar-se do agressor, mas Carlos fez nova manobra no veículo, aproximou-se de Willlian e realizou diversos outros disparos em direção a ele”, consta na denúncia.



