As apostas online deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento e passaram a ocupar espaço importante no orçamento dos brasileiros. Em 2025, as famílias tiveram perda líquida estimada em R$ 62,5 bilhões com apostas esportivas e jogos online, segundo levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados (Comsefaz), elaborado a partir de dados do Banco Central. As transferências via Pix para o setor foram estimadas em aproximadamente R$ 351 bilhões.
Os grandes eventos esportivos ajudam a dimensionar a força desse mercado. Durante a Copa do Mundo de 2026, levantamento da Klavi, baseado em dados do Open Finance de uma amostra de 1,2 milhão de pessoas, apontou que a proporção de usuários que enviaram dinheiro para plataformas de apostas chegou a 34,8% durante a competição, ante 11% em maio. O valor médio enviado, que era de R$ 188 antes do Mundial, aumentou durante o torneio e chegou a registrar pico de R$ 524 após uma partida da seleção brasileira.
O impacto também começa a aparecer nos serviços de saúde. Entre janeiro de 2018 e maio de 2025, o SUS registrou 10.553 atendimentos relacionados ao jogo patológico e a problemas associados a jogos e apostas, com crescimento de 104% no período analisado.
Para a psicóloga e neuropsicóloga Luanda Rosa, @psicologaluanda, os indicadores devem ser lidos com cautela. Os atendimentos registrados pelo SUS mostram um aumento da procura, mas não dimensionam sozinhos o número de pessoas que convivem com perdas, dívidas e dificuldades para interromper as apostas.
“Nem toda pessoa que perde o controle sobre o jogo chega a um serviço público de saúde. Algumas procuram a rede privada, grupos de apoio ou atendimento por conta própria. Outras não procuram ajuda por vergonha, medo de julgamento ou porque ainda acreditam que conseguirão recuperar o dinheiro na próxima aposta”, afirma Luanda.
Quando a aposta deixa de ser diversão
Segundo Luanda, compreender a compulsão por apostas exige ir além da ideia de falta de controle ou da vontade de ganhar dinheiro.
“O comportamento de apostar envolve mecanismos de recompensa, aprendizagem, expectativa e tomada de decisão. A dopamina participa desse sistema, mas a antecipação de uma possível recompensa e a incerteza sobre quando ela poderá acontecer também podem contribuir para a repetição do comportamento”, afirma.
Um dos mecanismos envolvidos é o chamado reforço intermitente, ou variável. Como o resultado é imprevisível, permanece a expectativa de que justamente a próxima aposta poderá trazer a recompensa esperada.
Depois de uma perda, outro fenômeno pode intensificar o problema: a perseguição das perdas, conhecida como chasing losses. A pessoa continua apostando, ou aumenta os valores, na tentativa de recuperar aquilo que perdeu.
“Nesse momento, a aposta pode mudar de função. A pessoa deixa de pensar apenas em ganhar e começa a sentir que precisa recuperar o prejuízo. Surge uma lógica perigosa: ‘se eu parar agora, perdi; se continuar, talvez consiga recuperar’. E a tentativa de reparar uma perda pode acabar produzindo perdas ainda maiores”, explica Luanda.
Nem sempre o gatilho é dinheiro
Ansiedade, solidão, conflitos familiares, frustrações, tédio e dificuldades financeiras também podem funcionar como gatilhos. Para algumas pessoas, apostar passa a representar momentaneamente uma fonte de excitação, expectativa ou até a esperança de resolver rapidamente um problema.
Por isso, segundo Luanda, não basta perguntar quanto a pessoa perdeu. É importante compreender como ela estava emocionalmente antes de apostar, o que esperava encontrar naquela experiência e o que aconteceu depois da perda.
A velocidade das plataformas digitais acrescenta outro elemento. Pelo celular, poucos segundos podem separar impulso, decisão e movimentação do dinheiro.
“Criar barreiras não resolve sozinho uma compulsão, mas pode devolver à pessoa algo extremamente importante: tempo para pensar antes de agir”, afirma a neuropsicóloga.
Retirar formas de pagamento salvas, limitar valores disponíveis para transferências, desativar notificações promocionais e utilizar mecanismos de bloqueio ou autoexclusão podem ajudar a aumentar a distância entre o impulso e a ação.
Os sinais podem aparecer antes de uma grande dívida
O alerta não precisa surgir somente quando o dinheiro acaba. Tentar repetidamente recuperar perdas, esconder valores apostados, mentir sobre gastos, aumentar progressivamente as quantias, comprometer recursos destinados às despesas básicas ou continuar apostando apesar dos prejuízos são comportamentos que merecem atenção.
As consequências também podem chegar à família. Dívidas escondidas, empréstimos, conflitos conjugais e quebra de confiança mostram que o impacto da compulsão pode ultrapassar quem aposta. A Organização Mundial da Saúde reconhece os danos associados ao jogo como uma questão de saúde pública e aponta possíveis consequências financeiras, familiares e para a saúde mental.
Recuperação, portanto, não significa simplesmente deixar de apostar. Pesquisadores brasileiros ligados ao Programa Ambulatorial do Jogo (PRO-AMJO), do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, consideram também aspectos como dívidas, sofrimento emocional, relações familiares, autonomia e atividades de lazer ao avaliar a recuperação.
Avaliação ajuda a entender o que existe por trás da compulsão em jogos online
Quando há perda persistente de controle, prejuízo financeiro significativo, tentativas frustradas de interromper as apostas ou suspeita de outras condições associadas, uma investigação mais ampla pode ajudar a compreender o que sustenta aquele comportamento.
“A avaliação neuropsicológica, sempre considerando a história e o funcionamento cotidiano da pessoa, tem como objetivo não apenas investigar um possível diagnóstico, mas identificar os fatores que aumentam a vulnerabilidade, o grau de comprometimento da autonomia e quais caminhos de tratamento e suporte podem ser mais adequados”, declara a psicóloga e neuropsicóloga Luanda Rosa.
Uma investigação ampla considera o funcionamento biopsicossocial, possíveis condições associadas, funções cognitivas e executivas, saúde emocional e a existência de uma rede de apoio.
Quando esse suporte é insuficiente, o paciente também pode ser direcionado a serviços, grupos e instituições capazes de acompanhá-lo ao longo do tratamento. Recuperação não significa apenas deixar de apostar, mas reconstruir autonomia, relações e saúde financeira.
“No jogo, o retorno depende da sorte. Na saúde, procurar ajuda é uma escolha. Apostar na sua saúde sempre será o melhor investimento que você pode fazer”, afirma Luanda Rosa.
Luanda Rosa



