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A mulher perfeita não existe, e talvez seja a hora de parar de persegui-la

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Há uma mulher perfeita por aí. Ela acorda cedo, trabalha, cuida da casa, dos filhos, do relacionamento, mantém uma vida social ativa, pratica exercícios, alimenta-se bem, está sempre bonita, responde às mensagens, acompanha as tendências, é emocionalmente madura, financeiramente organizada e ainda encontra tempo para cuidar de si.

Quando está no trabalho, ela não pode deixar que a vida pessoal atrapalhe, e quando está em casa, não pode deixar que o trabalho ocupe espaço demais. Quando é mãe, precisa estar presente, mas quando não é mãe, precisa justificar a escolha. Quando está solteira, deveria estar aberta ao amor, só que quando está em um relacionamento, é ela que precisa fazê-lo funcionar.

E, em algum momento do dia, ela deve descansar, tirar um breve cochilo da tarde, ou ter um tempo para desenvolver um desejo pessoal. O que, em retrospecto, parece irreal, certo? Porque é. Essa mulher é uma invenção, mas a cobrança para que sejamos como ela é bastante real.

Talvez uma das maiores armadilhas impostas às mulheres nas últimas décadas tenha sido transformar a ideia de independência em uma obrigação de autossuficiência. Conquistamos o direito de ocupar espaços, construir carreiras, escolher se queremos ou não uma família, administrar nosso próprio dinheiro e tomar decisões sobre nossas vidas, e tudo isso é visto e comemorado como conquista.

O problema começa quando a possibilidade de fazer escolhas se transforma na expectativa de fazer todas elas simultaneamente e com excelência. Para além de trabalhar, se deve construir uma carreira, e, junto disso, prosperar. Mas prosperar não é o suficiente, porque não podemos focar apenas em nós mesmas, então devemos conciliar, e é preciso parecer feliz enquanto fazemos isso.

Essa lógica é perversa porque transforma qualquer limite em fracasso pessoal. Se estamos cansadas, administramos mal o tempo. Se não conseguimos avançar profissionalmente, talvez não estejamos nos esforçando o suficiente. Se não temos tempo para os amigos, precisamos nos organizar melhor. Se não conseguimos cuidar do corpo, falta disciplina.

Quase nunca nos perguntamos se o problema está na quantidade absurda de coisas que esperamos que uma única pessoa consiga sustentar. E, nesse sentido, é bastante curioso como a sociedade passou a falar tanto sobre autocuidado enquanto continua produzindo condições que dificultam o próprio cuidado. Vendemos velas aromáticas, aplicativos de meditação, academias, retiros e rotinas matinais como soluções para uma exaustão que, muitas vezes, não é individual.

Há cansaços que não se resolvem com uma boa noite de sono, que são produzidos por excesso de responsabilidade, pela divisão desigual do trabalho doméstico, pela pressão profissional, pela necessidade de estar constantemente disponível e pela sensação de que sempre existe alguma área da vida que estamos negligenciando.

E existe ainda nesse problema uma camada particularmente cruel, que é a culpa. A mulher cansada frequentemente não pensa apenas “estou cansada”, ela pensa: “nossa, eu deveria estar conseguindo”, e essa pequena frase diz muito sobre o problema.

Porque isso indica que aprendemos a interpretar nossos limites como defeitos de caráter. Como se precisar de ajuda fosse sinal de incompetência, ou como se descansar fosse desperdício, só que ninguém consegue viver permanentemente no limite sem pagar algum preço.

A questão, portanto, não deveria ser como fazer para dar conta de tudo. Precisamos começar a perguntar: o que realmente precisa ser feito? O que pode esperar? O que pode ser delegado? O que não precisa ser perfeito? E, principalmente, o que estamos sacrificando para manter a aparência de que está tudo sob controle?

E a melhor parte disso, talvez, seja o fato de que a resposta nunca será a mesma. Há mulheres que irão escolher a maternidade, e outras jamais serão mães. Algumas vão colocar a carreira no centro da vida, e outras irão preferir uma rotina menos competitiva. Algumas vão querer construir uma família, outras encontrarão realização em projetos completamente diferentes.

Nenhuma dessas escolhas deveria precisar ser acompanhada de uma performance de excelência permanente, porque, no fim, a vida não é uma planilha de produtividade. Haverá períodos em que seremos profissionais melhores do que companheiras e, em outros, a família exigirá mais de nós. Haverá momentos em que nosso corpo será prioridade e outros em que simplesmente não teremos energia para cuidar dele como gostaríamos.

Isso não significa que estamos falhando, só que estamos vivendo. A mulher possível é muito menos glamourosa do que a mulher ideal. Ela chega atrasada, cancela compromissos, muda de ideia, não responde todas as mensagens, nem sempre está bonita, às vezes precisa de ajuda, comete erros, tem dias improdutivos e faz escolhas que não agradam a todo mundo.

E continua sendo uma mulher inteira.

*É empresária, mãe de um lindo casal de filhos, cronista, coach de vida, mulher aos 60+, terapeuta, entusiasta da arteterapia, gastrônoma; um dos seus hobbies é a fotografia e criar arranjos florais, curiosa de nascença, aprendiz da vida e um Ser a caminho da evolução.

Isolda Risso

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