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Vacinação também protege o coração? Entenda a nova orientação dos cardiologistas

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Quando pensamos em prevenção cardiovascular, algumas medidas surgem imediatamente: controlar a pressão, reduzir o colesterol, não fumar, praticar exercícios, cuidar do peso e acompanhar a glicemia.

Mas existe outro componente importante que frequentemente fica esquecido nas consultas: o calendário de vacinação.

Em agosto de 2025, o American College of Cardiology publicou uma orientação específica sobre o assunto: Adult Immunizations as Part of Cardiovascular Care. O documento propõe que a vacinação do adulto seja incorporada à rotina de prevenção e tratamento das doenças cardiovasculares.

Isso não significa que as vacinas substituam medicamentos, alimentação equilibrada ou atividade física. Significa reconhecer que determinadas infecções podem representar um estresse significativo para o coração especialmente em pessoas que já apresentam alguma vulnerabilidade cardiovascular.

Uma correção importante sobre o documento

Algumas publicações nas redes sociais apresentam esse material como uma orientação do ACC de 2026. Entretanto, o documento original foi aprovado em julho de 2025 e publicado em agosto do mesmo ano no Journal of the American College of Cardiology.

Também não se trata de um novo ensaio clínico que descobriu subitamente uma relação entre vacinas e coração. É uma orientação clínica concisa elaborada por especialistas, reunindo ensaios randomizados, estudos observacionais, diretrizes anteriores e recomendações de saúde pública disponíveis até maio de 2025.

A mensagem central é simples: para pessoas com doença cardiovascular, prevenir infecções graves também é uma forma de reduzir situações capazes de desestabilizar o coração.

 

Por que uma infecção pode afetar o sistema cardiovascular?

Uma infecção respiratória não fica necessariamente restrita aos pulmões.

Durante uma gripe, pneumonia, COVID-19 ou infecção pelo vírus sincicial respiratório, o organismo pode apresentar:

  • inflamação sistêmica;
  • aumento da frequência cardíaca;
  • maior necessidade de oxigênio;
  • redução da oxigenação do sangue;
  • desidratação;
  • alterações da coagulação;
  • maior ativação do sistema nervoso simpático;
  • disfunção do revestimento dos vasos sanguíneos.

Em uma pessoa saudável, o organismo frequentemente consegue compensar esse estresse. Em quem apresenta insuficiência cardíaca, doença coronariana, cardiomiopatia, diabetes, doença renal ou idade avançada, a margem de segurança pode ser menor.

A infecção pode precipitar descompensação da insuficiência cardíaca, arritmias, piora da angina e, em determinadas circunstâncias, infarto ou acidente vascular cerebral.

 

A evidência mais consistente envolve a influenza

A relação entre gripe e eventos cardiovasculares está entre as mais bem documentadas.

Estudos citados pelo ACC mostram que uma infecção por influenza confirmada em laboratório pode elevar aproximadamente seis vezes o risco de infarto durante a primeira semana após o diagnóstico.

Uma metanálise com seis ensaios randomizados, envolvendo 6.734 participantes, encontrou menos eventos cardiovasculares importantes entre as pessoas vacinadas contra influenza. A redução relativa foi de aproximadamente 36%, com benefício mais pronunciado entre pacientes que haviam apresentado uma síndrome coronariana recentemente.

É importante interpretar corretamente esse número. Ele não significa que a vacina reduza em 36 pontos percentuais o risco de qualquer pessoa sofrer um infarto. Trata-se de uma redução relativa observada em populações estudadas, com benefício absoluto dependente do risco inicial de cada paciente.

Quanto maior a vulnerabilidade cardiovascular, maior tende a ser a relevância de evitar uma infecção grave.

 

Todas as vacinas previnem infartos?

Não seria cientificamente correto fazer essa afirmação de maneira generalizada.

Para a vacina contra influenza, existem ensaios clínicos avaliando diretamente eventos cardiovasculares. Para outras vacinas, a demonstração mais sólida é a redução de infecções graves, hospitalizações e complicações respiratórias.

Como essas infecções podem descompensar o sistema cardiovascular, existe uma justificativa clínica importante para vacinar. Entretanto, nem todas as vacinas possuem ensaios demonstrando diretamente redução de infartos ou mortalidade cardiovascular.

Há, ainda, associações observacionais entre vacinação e menor ocorrência de eventos cardiovasculares. Esses resultados são promissores, mas não demonstram necessariamente uma relação causal.

A interpretação mais prudente é: as vacinas previnem doenças infecciosas potencialmente graves e, ao fazer isso, reduzem uma fonte evitável de estresse sobre o coração.

 

Quais vacinas são destacadas pelo ACC?

Influenza

A vacinação contra a gripe é recomendada anualmente. Pessoas idosas ou com doenças cardiovasculares podem ter indicação de formulações específicas, conforme disponibilidade e recomendação local.

O objetivo não é apenas evitar alguns dias de febre e mal-estar. É reduzir a probabilidade de gripe grave, pneumonia, hospitalização e descompensação cardiovascular.

Pneumocócica

O pneumococo pode causar pneumonia, meningite e infecção generalizada. Pessoas idosas e portadores de algumas doenças crônicas apresentam maior risco de formas graves.

Existem diferentes vacinas pneumocócicas e o esquema depende da idade, das condições clínicas e das doses recebidas anteriormente. Por isso, não basta perguntar se a pessoa “já tomou a vacina da pneumonia”: é necessário identificar qual vacina foi utilizada e em que momento.

COVID-19

Pessoas com doenças cardiovasculares apresentam maior risco de complicações quando desenvolvem COVID-19.

A indicação, a formulação e o intervalo entre as doses devem seguir as recomendações sanitárias atualizadas, que podem mudar conforme a circulação do vírus, o surgimento de novas variantes e o perfil de risco do paciente.

Vírus sincicial respiratório

O vírus sincicial respiratório, ou VSR, é frequentemente associado às doenças de crianças pequenas. No entanto, ele também pode provocar infecções graves em pessoas idosas e em adultos com insuficiência cardíaca, doença coronariana, diabetes ou doenças pulmonares.

As recomendações variam de acordo com a idade, o risco clínico, a disponibilidade e as normas de cada país.

Herpes-zóster

O herpes-zóster provoca inflamação e está associado, em estudos observacionais, a um aumento temporário do risco de infarto e AVC.

Alguns estudos também encontraram menos eventos cardiovasculares entre pessoas vacinadas. Esse resultado é interessante, mas deve ser interpretado com cautela, porque grande parte dessas evidências é observacional.

A principal finalidade da vacina continua sendo prevenir o herpes-zóster e suas complicações, especialmente a neuralgia pós-herpética.

 

A recomendação americana pode ser aplicada diretamente no Brasil?

Não de maneira automática.O documento do ACC foi elaborado com base no calendário e nas condições de acesso dos Estados Unidos. No Brasil, a indicação deve considerar:

  • o Programa Nacional de Imunizações;
  • os calendários do Ministério da Saúde;
  • as recomendações da Sociedade Brasileira de Imunizações;
  • a disponibilidade no SUS e na rede privada;
  • a idade e as doenças de cada paciente;
  • as vacinas recebidas anteriormente.

Os calendários brasileiros são atualizados periodicamente. Portanto, listas encontradas nas redes sociais podem estar incompletas ou desatualizadas.

A conduta mais segura é levar a carteira de vacinação à consulta e revisar o histórico com um profissional habilitado.

 

Pessoas com doença cardíaca podem receber várias vacinas?

Em muitas situações, diferentes vacinas podem ser administradas na mesma visita, utilizando locais distintos. Essa estratégia pode melhorar a adesão e evitar que oportunidades de vacinação sejam perdidas.

Entretanto, a decisão deve considerar histórico de alergias, imunossupressão, reações anteriores, gestação, presença de doença aguda e características específicas de cada vacina.

Uma infecção leve nem sempre impede a vacinação, mas quadros febris ou condições clínicas instáveis podem justificar o adiamento. A avaliação individual continua sendo essencial.

 

E os eventos adversos?

Dor no local da aplicação, cansaço, mal-estar, febre baixa e dores musculares podem ocorrer após algumas vacinas. Na maioria das vezes, são manifestações leves e transitórias da ativação do sistema imunológico.

Eventos adversos graves podem acontecer, mas são raros. O documento do ACC conclui que, particularmente nos pacientes cardiovasculares, os benefícios da proteção contra infecções graves superam amplamente os riscos conhecidos da vacinação.

Isso não significa ignorar possíveis efeitos adversos. Significa comparar riscos de maneira proporcional: o risco muito pequeno de uma complicação vacinal deve ser colocado ao lado do risco real de hospitalização, descompensação cardíaca ou morte provocado por uma infecção potencialmente evitável.

 

O que fazer na próxima consulta

Um cuidado cardiovascular completo pode incluir quatro perguntas simples:

  1. Minha carteira de vacinação está atualizada?
  2. Minha idade ou condição cardíaca muda alguma indicação?
  3. Qual vacina pneumocócica ou contra COVID-19 eu já recebi?
  4. Existe alguma contraindicação ou precaução específica no meu caso?

Levar o cartão de vacinação físico ou digital ajuda o médico a evitar tanto doses desnecessárias quanto oportunidades perdidas.

 

Vacinação não substitui os outros pilares da prevenção

Manter as vacinas em dia não compensa pressão alta sem controle, tabagismo, colesterol elevado, sedentarismo ou uso irregular dos medicamentos.

Da mesma forma, praticar exercícios e ter uma boa alimentação não elimina o risco de uma infecção grave.

A prevenção cardiovascular funciona melhor como um sistema: controle dos fatores de risco, acompanhamento médico, hábitos consistentes e redução das ameaças evitáveis.

A vacinação passa a ocupar um lugar importante nesse conjunto. Não como uma promessa de impedir todo infarto, mas como uma intervenção capaz de evitar infecções que podem exigir demais de um coração vulnerável.

Na próxima consulta, além dos exames e das medicações, leve também sua carteira de vacinação. Às vezes, uma parte importante da prevenção cardiovascular está registrada justamente ali.

Dr. Max Wagner de Lima – Cardiologista — CRM-MT 6194 | RQE 2308 Luminae — Alta Performance em Saúde

Referências

  • American College of Cardiology — documento original publicado no JACC
  • ACC — orientação para vacinação de adultos com doenças cardiovasculares
  • Ministério da Saúde — Calendário Nacional de Vacinação
  • Ministério da Saúde — Calendário Técnico Nacional de Vacinação
  • Sociedade Brasileira de Imunizações — calendário do adulto
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