A infância em uma pequena propriedade rural no sudoeste do Paraná ensinou a Karine Souza que a vida no campo exige trabalho, dedicação e, acima de tudo, esperança. Entre o cultivo de tabaco, a soja e a produção de leite, ela cresceu ajudando os pais nas atividades da propriedade. Anos depois, já formada em Ciências Biológicas e trabalhando como professora, mudou-se para Mato Grosso, onde construiu uma nova história, tornou-se produtora rural, assumiu responsabilidades na gestão da propriedade da família e passou a ocupar espaços de liderança no município de Ipiranga do Norte.
A trajetória de Karine representa uma realidade vivida por muitas mulheres rurais, que contribuem para a produção agropecuária não apenas no trabalho diário, mas também na administração, no planejamento e nas decisões que envolvem os negócios da família.
“Eu nasci e fui criada em uma pequena cidade do interior do Paraná. Meu pai e minha mãe viviam da agricultura. Eu ajudava no que podia, enquanto estudava”, relembra.
Na propriedade dos pais, enquanto a mãe trabalhava na lavoura, Karine ajudava nos serviços domésticos e nas atividades que estavam ao seu alcance. Uma das lembranças mais presentes da infância é o trabalho manual com o tabaco, cujas folhas eram reunidas em feixes após a secagem.
A experiência também marcou a visão da família sobre o futuro. A mãe de Karine, que conhecia de perto as dificuldades da atividade rural, incentivava os filhos a estudar para buscar outras oportunidades.
“Minha mãe dizia que a gente precisava estudar para não ficar na lavoura, porque era uma vida muito sofrida, trabalhando no sol. Então, eu estudei e fui para a área da educação”, conta.
Depois de concluir a faculdade, Karine seguiu carreira na educação e se mudou para Mato Grosso, onde começou a dar aulas em Ipiranga do Norte. Foi no município que conheceu o marido, produtor rural, com quem formou sua família.
Com a chegada dos filhos e as dificuldades para conciliar a rotina escolar com os cuidados das crianças, ela decidiu deixar a sala de aula e dedicar mais tempo à família e à propriedade rural.
A mudança não significou um afastamento do trabalho, mas uma nova forma de participar da atividade agropecuária. Karine passou a contribuir com as demandas administrativas, financeiras e operacionais do negócio, assumindo tarefas fundamentais para o funcionamento da propriedade.
“Às vezes, as pessoas não dão valor, mas tem toda uma organização. É levar marmita, organizar as coisas na época da colheita, buscar peças e ajudar na logística. São muitas atividades que precisam ser feitas para a propriedade funcionar”, explica.
Atualmente, ela acompanha o recebimento dos grãos, organiza pagamentos, encaminha documentos para a contabilidade e cuida de procedimentos relacionados à folha de pagamento, às contratações e às rescisões dos aproximadamente oito funcionários da propriedade.
A gestão também envolve o uso de ferramentas digitais para organizar as informações financeiras e contábeis. Na produção, a família utiliza tecnologias como GPS, agricultura de precisão e drones agrícolas, recursos que auxiliam nas operações e no planejamento das atividades.
Embora não tenha formação acadêmica na área agrícola, Karine buscou conhecimento para compreender melhor o setor e desempenhar suas funções. O marido foi uma referência importante nesse processo, compartilhando experiências e orientando-a diante das dúvidas que surgiam.
“Eu precisei me aprofundar e buscar informações nas entidades do agro. Aprendi muito também quando comecei a participar das atividades de liderança do Sindicato Rural”, relata.
O envolvimento com o setor rural levou Karine a ampliar sua participação para além da propriedade. Ela chegou à presidência do Sindicato Rural de Ipiranga do Norte, experiência que contribuiu para seu aprendizado sobre liderança, organização e as demandas dos produtores.
Comissão Famato Mulher fortalece a participação feminina no agro
A experiência na propriedade rural também levou Karine a ampliar sua participação no setor. Como vice-presidente do Núcleo Regional da Comissão Famato Mulher, da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), ela integra um espaço de troca de experiências, aprendizado e fortalecimento da presença feminina no agro.
Por meio dos encontros promovidos pela Comissão, mulheres ligadas ao setor rural têm a oportunidade de compartilhar suas vivências, discutir desafios e ampliar conhecimentos sobre o agronegócio. A iniciativa também contribui para aproximar produtoras, incentivar a participação feminina nas entidades representativas e valorizar o papel das mulheres na gestão das propriedades e no desenvolvimento do campo.
Para Karine, a participação nesse movimento está relacionada à própria trajetória. Mesmo sem formação acadêmica na área agrícola, ela buscou conhecimento para atuar na administração da propriedade da família e, com o tempo, também assumiu responsabilidades na representação dos produtores rurais.
Além da atuação no setor, Karine ingressou na vida pública e tornou-se vereadora de Ipiranga do Norte. Ela também já presidiu a Câmara Municipal, ampliando sua participação nas discussões relacionadas ao desenvolvimento do município e às demandas da comunidade.














