A falta de mão de obra qualificada é um dos desafios que pressionam o mercado de trabalho brasileiro. Em fevereiro de 2026, dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontaram que aproximadamente 23% dos industriais relataram dificuldades para encontrar profissionais capacitados, ante cerca de 5% entre 2015 e 2020. Entre as pequenas empresas, o índice chegou a 28,4%.
O cenário evidencia um problema que vai além da criação de vagas e das discussões sobre a jornada de trabalho. Para Ana Freitas, advogada internacionalista e especialista em mobilidade global, o país precisa ampliar o debate sobre emprego e considerar também a preparação dos profissionais para atender às necessidades da economia.
“Discutir o futuro do trabalho exige olhar para além da quantidade de vagas disponíveis ou da jornada semanal. Precisamos entender se o país está formando profissionais com as competências necessárias e se existem condições para aproximar as pessoas das oportunidades que o mercado oferece”, afirma.
A dimensão do desafio aparece também no Mapa do Trabalho Industrial 2025–2027, elaborado pelo Observatório Nacional da Indústria, que estima a necessidade de qualificar 14 milhões de profissionais no período. Desse total, 2,2 milhões correspondem à formação inicial e 11,8 milhões à atualização de trabalhadores que já estão no mercado. A projeção não representa 14 milhões de vagas abertas, mas indica a escala da demanda por formação e aperfeiçoamento profissional.
Segundo Ana, a distância entre as competências disponíveis e as exigências das empresas pode comprometer a produtividade e limitar o crescimento dos negócios. “Quando uma empresa não encontra os profissionais de que precisa, o impacto não fica restrito ao setor de recursos humanos. Projetos podem atrasar, a produção pode ser comprometida e oportunidades de expansão podem ser perdidas. Ao mesmo tempo, existem pessoas procurando trabalho. É preciso compreender por que essas duas realidades coexistem”, explica.
A especialista pondera, porém, que a dificuldade de contratação nem sempre decorre exclusivamente da falta de qualificação. Remuneração, localização, exigências de experiência e condições de trabalho também influenciam a disponibilidade de candidatos e a permanência dos profissionais nas empresas.
“Antes de concluir que faltam trabalhadores, é necessário avaliar as condições oferecidas para aquela vaga. A qualificação é parte do problema, mas não podemos ignorar salários, perspectivas de crescimento e condições de trabalho. São questões diferentes, que exigem respostas diferentes”, destaca.
O envelhecimento populacional também pressiona o mercado de trabalho. Segundo o IBGE, a população brasileira deve atingir seu máximo em 2041 e começar a diminuir a partir de 2042. Para Ana Freitas, o cenário reforça a importância da qualificação contínua. “O Brasil precisa investir em produtividade e atualização profissional, criando condições para que os trabalhadores acompanhem as mudanças do mercado e construam novas trajetórias”, avalia.
Imigração pode complementar a formação de profissionais brasileiros
A mobilidade internacional também pode fazer parte das respostas à escassez de mão de obra em áreas específicas. A contratação de profissionais estrangeiros pode ampliar a disponibilidade de determinadas competências, favorecer a circulação de conhecimento e contribuir para a transferência de experiência entre equipes.
“A imigração profissional pode ser uma ferramenta importante quando existe uma necessidade concreta de competências que não estão disponíveis em quantidade suficiente em determinado setor ou região. Isso não significa substituir a formação de brasileiros, mas combinar estratégias para atender às demandas da economia”, afirma Ana.
A advogada também chama atenção para o potencial dos estrangeiros que já vivem no país. Barreiras linguísticas, dificuldades para comprovar experiência e obstáculos ao reconhecimento de diplomas podem impedir que profissionais exerçam atividades compatíveis com sua formação.
“Não basta atrair profissionais de outros países. Também precisamos criar condições para que as competências dessas pessoas sejam reconhecidas e aproveitadas de forma adequada. Quando alguém trabalha muito abaixo da própria qualificação por não conseguir validar sua experiência, o país também perde”, ressalta.
A especialista pondera que a contratação internacional precisa respeitar as regras migratórias e trabalhistas e não pode servir como justificativa para condições inadequadas de emprego.
“A mobilidade internacional deve responder a necessidades reais do mercado, com respeito aos direitos dos trabalhadores. Não se pode confundir falta de profissionais qualificados com a dificuldade de atrair candidatos para vagas que oferecem condições pouco competitivas”, acrescenta.
Debate sobre emprego precisa ir além da criação de vagas
Com as eleições de 2026, o tema também coloca em pauta a necessidade de políticas públicas que articulem educação profissional, desenvolvimento regional e integração de trabalhadores. A formação de mão de obra depende da participação de governos, instituições de ensino e empresas, além de planejamento para acompanhar as transformações demográficas e econômicas.
Na avaliação de Ana Freitas, o desafio está em tratar qualificação, produtividade e mobilidade internacional como parte de uma mesma estratégia para o mercado de trabalho.
“Criar empregos é fundamental, mas também precisamos garantir que as pessoas tenham oportunidades de se preparar para essas vagas e que as empresas consigam encontrar as competências necessárias para crescer. O futuro do trabalho no Brasil depende da capacidade de conectar formação profissional, oportunidades e condições adequadas de contratação”, conclui.














