Uma movimentação de R$ 3,17 milhões na conta de um vereador, transferências de mais de R$ 700 mil envolvendo outro parlamentar e operações financeiras que alcançam familiares, assessores e empresários colocaram pelo menos três vereadores de Várzea Grande sob análise financeira do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco).
Os dados constam de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) incorporados à Operação Cathedra Venalis, que investiga suspeitas de corrupção, compra de apoio político e organização criminosa na Câmara Municipal.
Os vereadores Miguel Angel Claros Paz Junior, Cilço da Cruz Filho e Wanderley Cerqueira aparecem entre os parlamentares com movimentações individualizadas. O levantamento também alcança outras pessoas relacionadas à investigação, com registros de operações em espécie, transferências entre contas pessoais e empresariais e transações consideradas incompatíveis com o perfil financeiro de determinados envolvidos.
O maior volume identificado entre os vereadores citados é o de Miguel Angel Claros Paz Junior. Segundo o Gaeco, sua conta pessoal registrou movimentação de R$ 3.170.953. A análise aponta R$ 802.546 em transferências entre contas de sua própria titularidade, além de R$ 585.314 em movimentações bilaterais com Rafael Piovezan de Campos e R$ 98.237 em operações envolvendo o Centro de Especialidades Médicas de Várzea Grande (CEMED-VG).
Os investigadores também identificaram um depósito de R$ 62.500 em espécie na conta do parlamentar, cuja justificativa declarada foi a realização de atendimentos médicos.
Outra relação financeira examinada envolve o pai do vereador, Miguel Angel Claros Paz, médico e ex-parlamentar. O relatório registra transferências de R$ 89.789,70 feitas pelo filho ao pai, além do pagamento de boletos em benefício do vereador.
A movimentação do núcleo familiar também inclui repasses de Nilo Ponce de Arruda Neto. Conforme o documento, ele transferiu R$ 74.003 ao vereador e R$ 107.105 ao pai, totalizando R$ 181.108 destinados aos dois. O relatório não individualiza a causa econômica dessas transferências.
O Gaeco classificou o núcleo de Miguel Angel Claros Paz Junior como o de maior complexidade financeira e relacional entre os analisados, em razão da quantidade de operações e das conexões entre contas pessoais, familiares e empresariais.
Outro vereador citado é Cilço da Cruz Filho, que apresentou R$ 713.056 em movimentações diretamente individualizadas. Desse total, R$ 549.378 correspondem a valores recebidos e R$ 163.678 a recursos enviados.
A principal conexão financeira identificada envolve a empresa Grampo Segurança e Monitoramento Ltda., que transferiu R$ 546.378 ao parlamentar e recebeu dele R$ 75.318. As operações entre as duas partes somaram R$ 621.696.
O relatório também registra uma operação em espécie de R$ 76.449 associada ao vereador. Além disso, aponta que a empresa de segurança manteve relações financeiras com negócios dos setores de construção, engenharia e incorporação.
O presidente da Câmara Municipal, Wanderley Cerqueira, também aparece no levantamento. Em seu nome, foram individualizados R$ 22.889 em movimentações diretas, sendo R$ 9.485 recebidos e R$ 13.404 enviados.
Entretanto, a principal linha de investigação financeira relacionada a Wanderley envolve o assessor comissionado Aloisio Osvino Dreyer. Segundo o Gaeco, o servidor realizou movimentações com familiares do vereador e outras pessoas vinculadas à estrutura administrativa da Câmara.
Considerando as operações diretas de Wanderley e os valores individualizados de familiares e pessoas relacionadas na conta de Aloisio, o relatório identificou R$ 162.633,63 em transações no recorte analisado.
O documento também registra que a conta de Wilson de Cerqueira Filho apresentou movimentação global de R$ 2.182.792. A Grid Veículos Ltda., administrada por Wilson, transferiu R$ 281.619,69 para sua conta pessoal.
Outra frente da análise financeira envolve o vereador sargento Galibert. O Gaeco identificou R$ 427.117,55 em movimentações detalhadas nas contas examinadas, com destaque para 79 saques que totalizaram R$ 199.479,99.
Segundo os investigadores, as retiradas em espécie representaram aproximadamente 92% dos débitos analisados, dificultando a identificação do destino final do dinheiro.
O parlamentar também aparece em duas negociações imobiliárias declaradas pelo valor conjunto de R$ 10 mil, embora os imóveis tenham sido avaliados fiscalmente em R$ 58.320.
O relatório inclui ainda movimentações relacionadas a Flavio de Oliveira Silva. Entre os registros estão um depósito de R$ 100 mil em conta de terceiros, transferência de R$ 50 mil para empresa ligada ao núcleo familiar, movimentação de R$ 260 mil entre contas próprias e negociação imobiliária de R$ 472.285,56, com pagamento de R$ 140 mil em espécie.
Também foram identificados um depósito de R$ 60 mil para uma empresa e uma operação de crédito de R$ 850 mil. O Gaeco ressalta que os valores possuem naturezas distintas e não podem ser somados automaticamente.
Em relação ao vereador Braz Jaciro Ferreira de França, os investigadores identificaram o recebimento de R$ 8 mil provenientes de uma conta cuja movimentação global foi considerada incompatível com o perfil econômico da remetente. A finalidade e a origem material específica do pagamento não foram individualizadas.
O vereador Wender Madureira também foi analisado em razão de uma operação de crédito bancário de R$ 192.672,24 envolvendo integrante de seu núcleo familiar. Nesse caso, porém, o próprio relatório não aponta incompatibilidade financeira específica ou transferência relacionada a outro investigado.
As informações foram reunidas a partir dos Relatórios de Inteligência Financeira encaminhados pelo Coaf e examinados pelo Gaeco para identificar possíveis relações entre a circulação de recursos e as denúncias de pagamento de vantagens indevidas a parlamentares.
A Operação apura suspeitas de oferecimento de dinheiro para assegurar votos na eleição da Mesa Diretora, pagamentos mensais a integrantes da base política e articulações para manter influência sobre decisões do Legislativo de Várzea Grande.














