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A empresa investe. O funcionário não sente.

Rodrigo Dib

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engajamento. Têm um problema de autoengano.

Existe uma pergunta que faço com frequência a líderes de RH e CEOs: você sabe, com dado real e recente, o quanto seus funcionários estão engajados hoje?

A resposta costuma vir acompanhada de indicadores parciais. Turnover (a taxa de rotatividade de funcionários) sob controle. Resultado da última pesquisa de clima dentro do esperado. Nenhuma demissão em massa nos últimos meses. São dados reais, mas medem o que é fácil medir, não o que mais importa. E é exatamente nesse espaço entre o dado disponível e o dado necessário que mora o problema.

A pesquisa Tendências de Gestão de Pessoas 2026, do Great Place to Work Brasil, mostra que 69,3% das empresas afirmam ter equipes engajadas. No mesmo período, o Engaja S/A, estudo independente produzido pela Flash em parceria com a FGV EAESP com mais de 5 mil trabalhadores representativos do mercado formal, encontrou o menor nível de engajamento da série histórica: apenas 39% dos profissionais brasileiros se declaram engajados.

Empresa e funcionário olham para a mesma realidade e enxergam coisas completamente diferentes. Quando isso acontece de forma tão consistente, o problema raramente é só o funcionário.

Esse abismo já tem impacto mensurável. Segundo o Engaja S/A, o Brasil perde cerca de R$ 77 bilhões por ano com turnover e presenteísmo, aquele funcionário que ocupa a cadeira, participa da reunião e entrega o mínimo, mas emocionalmente já foi embora faz tempo. Isso representa 0,66% do PIB.

A Gallup aponta que o baixo engajamento custou à economia global cerca de US$ 10 trilhões em produtividade em 2025. O problema deixou de ser apenas humano. Virou econômico.

E o mais curioso é que não falta investimento. Falta direção.

O mesmo estudo mapeou as 40 práticas de RH mais comuns nas empresas brasileiras e chegou, pelo segundo ano consecutivo, a uma conclusão desconfortável: as práticas mais adotadas pelas organizações não estão entre as que mais aumentam o engajamento.

As empresas continuam investindo em avaliações de desempenho tradicionais, treinamentos genéricos e reuniões de acompanhamento. Os profissionais valorizam autonomia, flexibilidade, desenvolvimento e qualidade de vida.

A empresa investe. O funcionário não sente.

E quase ninguém para para perguntar por quê.

Existe uma contradição curiosa no mercado atual.

As empresas cobram dos profissionais adaptabilidade, aprendizado contínuo e rapidez diante das mudanças. Essas competências aparecem em praticamente toda descrição de vaga, palestra de liderança ou evento corporativo.

Mas quando olhamos para a forma como a gestão de pessoas opera dentro das próprias organizações, o ritmo costuma ser outro: política definida no final do ano até janeiro, aprovada até março, implementada no segundo semestre e revisada no fim do ano, quando o problema já mudou de forma ou já saiu pela porta junto com quem pediu demissão.

O profissional que não se adapta rápido é chamado de resistente. A empresa que não se adapta rápido ainda se sente normal.
A consequência é direta: a maioria das organizações não escuta seus funcionários em tempo real.

A pesquisa anual de clima captura um retrato atrasado de uma realidade que já mudou. Quando o relatório chega à diretoria, o dado já envelheceu. A realidade de agosto raramente é a mesma de novembro.

Escuta ativa não é aplicar um questionário uma vez por ano e transformar o resultado em slide. É monitorar continuamente, ajustar rápido e mostrar para quem respondeu que aquela resposta gerou alguma mudança concreta. É fazer gestão de engajamento a cada minuto. Uma responsabilidade não só do RH mas de cada gestor.

Sem isso, a pesquisa vira ritual. E ritual sem ação produz exatamente o que as empresas dizem querer combater: distanciamento e descrença.

Agora existe também uma pressão regulatória.

Pela Portaria MTE nº 1.419/2024, que entra plenamente em vigor em 26 de maio de 2026, empresas com trabalhadores CLT passam a ser obrigadas a identificar e gerenciar riscos psicossociais, incluindo burnout, assédio, sobrecarga e ambientes tóxicos, com o mesmo rigor exigido para riscos físicos.

O contexto ajuda a explicar a urgência. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, o Brasil registrou 546.254 afastamentos por transtornos mentais em 2025, alta de 15,66% em relação ao ano anterior e o maior número da série histórica.
Ansiedade e depressão já aparecem entre os principais motivos de afastamento do trabalho no país.

A NR-1 não criou o problema. Ela chegou porque o problema ficou grande demais para continuar sendo tratado como tema secundário.

Quem enxergar isso apenas como burocracia vai montar uma pasta, preencher um documento e continuar operando no escuro. Quem entender o tamanho da mudança vai finalmente tratar dado de gente com o mesmo rigor que trata dado de negócio.

O talento mudou. A gestão ainda não.

Nos meus mais de 25 anos de carreira executiva olhando a inserção e formação de jovens, acompanho isso de perto. O jovem chega ao mercado com expectativas totalmente diferentes das gerações anteriores. E não estamos falando de capricho.
A Geração Z busca saúde mental, aprendizado, crescimento, flexibilidade e autenticidade na hora de fazer a escolha de um empregador. Vejo isso todos os dias no CIEE, onde mais de 400 mil jovens passam pelo processo de inserção no mercado de trabalho por ano.

Marca empregadora não se constrói em campanha de recrutamento. Ela é consequência da experiência real de quem trabalha ali dentro.

Uma empresa que não escuta seus funcionários e não mede de forma consistente o que eles sentem não sabe o que está comunicando para o mercado. E normalmente descobre isso tarde demais, quando os melhores talentos simplesmente escolhem outro lugar.

As organizações que avançaram em gestão de pessoas entenderam algo simples: dado de gente precisa ser tratado com o mesmo rigor que dado financeiro, que é medido diariamente.

Medem com frequência, ajustam rápido e não dependem apenas da própria percepção para avaliar a própria cultura. Porque ninguém avalia bem aquilo que avalia sobre si mesmo.

No fim, a pergunta não é filosófica. É de gestão: sua empresa tem uma opinião sobre o engajamento das pessoas, ou tem os dados precisos da semana passada sobre o tema?

Rodrigo Dib, superintendente Institucional do Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE, especialista em Carreira, Mercado de Trabalho e educação, e autor do livro “O mundo é seu, mas calma lá”.

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