AGRONEGÓCIO
Safra recorde em MT expõe colapso da armazenagem e pressiona produtor no campo
Muvuca Popular
A perspectiva de uma nova safra recorde de grãos em Mato Grosso volta a expor um problema estrutural que se repete ano após ano no campo: a capacidade de armazenagem insuficiente frente ao crescimento acelerado da produção. O descompasso entre colheita e estocagem pressiona a logística, encarece custos e reduz a autonomia comercial do produtor rural.
Dados do setor apontam que a capacidade total de armazenagem no Brasil, estimada em cerca de 225 milhões de toneladas, não acompanha o ritmo da produção nacional, obrigando parte significativa dos grãos a ser escoada imediatamente após a colheita. O cenário gera filas em unidades recebedoras, sobrecarga no transporte e reduz o poder de negociação do produtor.
Em Mato Grosso, mesmo sendo o estado com maior estrutura instalada do país, o gargalo persiste. Levantamentos do IMEA indicam capacidade aproximada de 57,9 milhões de toneladas, volume que cobre cerca de 52% da produção total estadual, segundo a Conab. Quando consideradas apenas soja e milho, o índice sobe para 56%, ainda assim insuficiente diante da demanda, com déficit estimado em 45,28 milhões de toneladas.
O vice-presidente Oeste da Aprosoja MT, Gilson Antunes de Melo, afirma que a falta de estrutura de armazenagem segue entre os principais entraves enfrentados pelo produtor e impacta diretamente o planejamento das propriedades.
“Quando chega o momento da colheita, o produtor muitas vezes não tem onde armazenar a produção. Em várias cidades de Mato Grosso há apenas um ou dois armazéns, e todos acabam colhendo praticamente no mesmo período. Com isso, surgem as filas para descarregar e o produtor fica dias com os caminhões aguardando. Esse atraso afeta diretamente a colheita, reduz a produtividade e compromete a rentabilidade. Na prática, ele acaba ficando refém das tradings e de quem tem estrutura para receber e armazenar esse produto. E, claro, sem o produto em mãos, ele não consegue negociar no momento que considera mais adequado, mas sim quando o mercado está comprando. Se ele tivesse o produto estocado dentro da própria propriedade, com estrutura de armazenagem, poderia escolher o melhor momento para vender, conseguindo melhores preços e maior rentabilidade”, pontuou.
Diante das limitações da estrutura convencional, o silo bolsa vem ganhando espaço como alternativa de baixo custo e uso imediato dentro das propriedades rurais. Para Gilson, a ferramenta ajuda a amenizar parte do déficit e garante mais flexibilidade ao produtor na comercialização.
“O silo bolsa caiu como uma luva nesse cenário. Se considerarmos que a capacidade de armazenagem cobre cerca de 50% da safra, o restante acaba ficando na lavoura ou nos caminhões. Nesse contexto, a silo bolsa se tornou uma das primeiras alternativas dos produtores para armazenar a produção. Ela não exige um custo elevado para implantação, mantém a qualidade dos grãos e permite que o produtor comercialize em um momento mais estratégico, quando o mercado não está em plena colheita, o que geralmente resulta em melhores preços. Hoje, depois dos armazéns convencionais, a silo bolsa é uma das alternativas mais viáveis, especialmente para a segunda safra. É uma solução que garante a conservação do produto com um custo relativamente baixo, considerando os benefícios que oferece”, salientou.
Na prática, a ausência de capacidade de armazenagem suficiente altera toda a dinâmica da colheita e da venda no campo, como relata o produtor rural de Campos de Júlio, Ivo Frohlich Júnior.
“O principal motivo que nos levou a adotar o uso da silo bolsa foi a possibilidade de obter um preço melhor. Na entressafra, é possível alcançar valores mais atrativos, o que acaba compensando todos os custos do sistema e garantindo rentabilidade. Outro ponto importante é a questão do frete, já que a contratação de caminhões, especialmente no caso do milho, eleva significativamente os custos logísticos. Além disso, há também os descontos praticados pelas empresas e os custos de armazenagem. Com a silo bolsa, o produtor ganha mais autonomia, uma vez que ele fica livre para negociar no mercado, vender para quem quiser e quando puder, inclusive para o mercado interno, sem pagar custos de armazenagem. Para mim, ela continua sendo uma das melhores opções disponíveis”, afirmou.
O produtor também destaca que a tecnologia já se consolidou como ferramenta essencial diante das limitações estruturais do estado.
“Para mim, a silo bolsa se tornou uma ferramenta indispensável. Sem sombra de dúvida, o produtor que ainda não utiliza essa alternativa acaba deixando muito dinheiro para as tradings. Eu vejo a silo bolsa como uma das tecnologias de armazenamento que chegaram para ficar e que têm sido cada vez mais utilizadas. Quem adotou essa ferramenta até hoje, em geral, não se arrepende, justamente pelos benefícios que ela oferece. E a tendência é que cada vez mais produtores passem a utilizá-la”, disse Ivo.
Com o avanço contínuo da produção e a defasagem da infraestrutura de armazenagem, o setor produtivo segue buscando soluções intermediárias enquanto discute alternativas estruturais de longo prazo para reduzir o gargalo logístico no estado.


