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Advocacia: uma vocação que atravessa gerações

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Há quase 200 anos, o Brasil começava a formar seus próprios profissionais do Direito. Em 11 de agosto de 1827, foram criados os primeiros cursos jurídicos do país, em São Paulo e Olinda, dando origem à tradição que transformaria a data no Dia da Advocacia.

Quase dois séculos depois, celebrar a data é também olhar para o quanto o Brasil e a própria profissão se transformaram. Somos hoje um dos países com maior número de advogados por habitante no mundo, com mais de 1,5 milhão de profissionais em situação regular na OAB, sendo quase 38 mil apenas em Mato Grosso.

É um número impressionante, mas que também revela a dimensão da responsabilidade de quem escolhe o Direito como profissão. Ser advogada no Brasil nunca foi simples e, diante das transformações das últimas décadas, talvez seja hoje ainda mais desafiador.

Vivemos em um ambiente de permanente mudança legislativa, com novas leis, alterações frequentes, diferentes interpretações dos tribunais e uma produção normativa que exige atualização constante. No século XXI, a isso se somou uma transformação ainda maior: a revolução tecnológica.

Inteligência artificial, processos digitais, proteção de dados, novas formas de comunicação e relações econômicas inéditas estão criando questões que sequer faziam parte do cotidiano jurídico há poucos anos. A tecnologia muda a velocidade do mundo, mas o Direito precisa acompanhar essa velocidade sem perder aquilo que lhe dá sentido: a proteção da pessoa, da liberdade e da justiça.

Como conselheira estadual da OAB-MT, tenho a oportunidade de acompanhar mais de perto essa realidade. Vejo uma advocacia cada vez mais plural, formada por profissionais com diferentes trajetórias, especialidades, experiências e habilidades.

Em Mato Grosso, já somos mais de 37,9 mil inscritos na Ordem, caminhando para a marca de 38 mil profissionais. E cada entrega de carteira representa muito mais do que um número: existe ali uma história de estudo, esforço, renúncias, expectativas e sonhos.

Por isso, cada cerimônia de entrega de carteira me traz enorme orgulho. Orgulho de pertencer a uma classe numerosa, diversa e combativa, que continua escolhendo o Direito mesmo diante das dificuldades de um mercado cada vez mais exigente.

Esse sentimento também tem uma dimensão muito pessoal. Sou esposa de advogado e mãe de um filho ainda adolescente que, com orgulho, já manifesta o desejo de seguir o mesmo caminho.

Quando penso nisso, percebo que a advocacia também pode ser uma vocação que atravessa gerações. A profissão que nasceu oficialmente no Brasil há quase dois séculos continua despertando nos jovens o desejo de compreender as leis, defender direitos e participar da construção de uma sociedade mais justa.

Mudam as leis, os tribunais, as ferramentas e as tecnologias, mas permanece a necessidade de alguém que conheça o Direito e esteja disposto a colocá-lo a serviço de quem precisa. Essa é, talvez, uma das maiores forças da advocacia: sua capacidade de se transformar sem perder sua essência.

Neste 11 de agosto, celebramos não apenas uma profissão, mas todos aqueles que escolheram exercê-la. Celebramos quem estuda, atualiza-se, enfrenta os desafios cotidianos e empresta sua voz a quem precisa de justiça.

Quase 200 anos depois da criação dos primeiros cursos jurídicos do país, continuamos chegando às faculdades, recebendo nossas carteiras e entrando nos fóruns com a mesma pergunta essencial: como fazer justiça? Enquanto essa pergunta continuar sendo feita, haverá espaço para a advocacia — e razões para termos orgulho de ser advogados e advogadas.

Hígara Carinhena é advogada, especialista em Recuperação Judicial, Conselheira Estadual da OAB/MT

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