TRÊS ANOS DE PESQUISA
Tese de doutorado revela o saber dos “raizeiros” sobre plantas medicinais em MT
Muvuca Popular
Uma tese de doutorado defendida na Universidade do Vale do Taquari – Univates reuniu, durante três anos, o conhecimento de raizeiros, moradores urbanos e comunidades rurais do norte de Mato Grosso sobre o uso medicinal de plantas nativas e cultivadas da Amazônia. O trabalho, assinado pela pesquisadora Maria Ilmalucia Teixeira e desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento (PPGAD), mapeou 109 espécies botânicas empregadas no tratamento de doenças como gripes, infecções, inflamações e problemas digestivos, mostrando que o saber popular está diretamente relacionado à biodiversidade da região e pode servir de base para futuras pesquisas farmacológicas.
A pesquisa foi realizada nos municípios de Alta Floresta e Carlinda, no sul da Amazônia mato-grossense, entre zonas urbanas e rurais. Ao todo, foram entrevistados dez raizeiros – especialistas tradicionais no uso terapêutico de plantas -, além de 300 moradores da região, em um esforço que combinou entrevistas, observação de campo e análises estatísticas para comparar o conhecimento etnobotânico entre diferentes grupos sociais.
Um saber que atravessa gerações
Praticado há séculos por povos originários, migrantes e comunidades rurais, o uso de plantas para cura de doenças continua sendo, conforme a tese, uma alternativa de baixo custo e ampla aceitação cultural para populações que têm acesso limitado a serviços de saúde. A pesquisa se insere no campo da etnobotânica, ciência que estuda a relação entre sociedades humanas e o mundo vegetal, e da etnofarmacologia, voltada aos usos terapêuticos desse conhecimento.
O estudo destaca que os chamados raizeiros funcionam como guardiões de um patrimônio cultural e biológico, visto que conhecem os usos medicinais das plantas, mas também os períodos de floração e frutificação, praticando formas sustentáveis de coleta que ajudam a preservar a vegetação nativa. Entre as espécies mais citadas pelos entrevistados estão o assa-peixe, a losna, a arnica, a calêndula, a carqueja, o guaco, o boldo, a erva-cidreira e o barbatimão – muitas delas já reconhecidas oficialmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse (Renisus).
O orientador do trabalho, professor Eduardo Périco, destaca que, ao utilizarem prioritariamente espécies nativas e abundantes em seu ambiente, os raizeiros contribuem para a valorização e conservação da vegetação local. Dessa forma, preservar e reconhecer o conhecimento dos raizeiros significa também proteger a biodiversidade e fortalecer a relação entre comunidades e natureza.
O trabalho também documentou uma técnica local pouco conhecida fora da região: o chamado método “Biodigital” ou Método Bioenergético de Tratamento Natural, conhecido pela sigla Aramim, praticado pelos raizeiros entrevistados como parte de seus atendimentos.
Como a pesquisa foi conduzida
Organizada em formato alternativo, conforme permite o regulamento do PPGAD/Univates, a tese resultou em três artigos científicos, cada um correspondendo a uma etapa da investigação.
No primeiro estudo, a pesquisadora entrevistou dez raizeiros de quatro comunidades rurais de Alta Floresta: Nossa Senhora de Guadalupe, Nova Alvorada, Santa Lúcia e Terra Santa. Para isso, utilizou o método conhecido como “bola de neve”, em que cada entrevistado indica o próximo participante, até que toda a rede de especialistas seja mapeada. As entrevistas foram gravadas e transcritas, com autorização prévia dos participantes, e complementadas por um registro fotográfico das plantas durante caminhadas guiadas pelos próprios raizeiros – técnica batizada de “trilha livre”. Cada espécie citada foi depois checada em bases de dados científicas nacionais para confirmar sua identificação botânica e usos já descritos na literatura.
O segundo artigo ampliou o alcance da pesquisa para comparar o conhecimento de moradores urbanos e rurais. Foram aplicados questionários estruturados a 300 pessoas, 150 da zona urbana de Alta Floresta e 150 da zona rural de Alta Floresta e Carlinda, sempre contemplando um único entrevistado adulto que fizesse uso de plantas medicinais por domicílio. A coleta ocorreu entre abril e dezembro de 2022, aos domingos, e seguiu protocolos de ética em pesquisa: o projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Univates e pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), tendo todos os participantes assinado termo de consentimento livre e esclarecido. Os dados foram analisados estatisticamente por meio de uma Análise de Coordenadas Principais e de regressões lineares simples, processadas na plataforma R, cruzando informações sobre idade, renda, escolaridade, religião e naturalidade dos entrevistados com as espécies de plantas citadas.
Já o terceiro artigo buscou entender se existe relação entre o conhecimento tradicional dos raizeiros e a disponibilidade real dessas plantas na natureza. Para isso, a autora comparou a lista de espécies citadas nas entrevistas com registros de herbário disponíveis na plataforma científica speciesLink, cruzando também informações do site Flora e Funga do Brasil sobre distribuição geográfica, hábito de crescimento e tipo de vegetação de cada espécie.
Os principais achados
Entre os resultados, a tese mostra que as mulheres são importantes na transmissão do conhecimento sobre plantas medicinais, já que elas predominaram entre os entrevistados, tanto na zona urbana (75%) quanto na rural (59%), e relataram, em média, um número significativamente maior de espécies conhecidas do que os homens.
A pesquisa também identificou diferenças relevantes entre as comunidades. Na comparação entre zona urbana e rural, moradores rurais citaram mais espécies por comunidade do que os moradores urbanos por bairro, mas o conhecimento nas duas áreas mostrou-se mais distinto pelas espécies escolhidas do que pela quantidade total de plantas conhecidas, indicando que tanto o campo quanto a cidade mantêm saberes próprios sobre o uso terapêutico da flora local. Chamou atenção o fato de moradores mais jovens da zona rural (entre 31 e 43 anos) terem relatado conhecer mais espécies do que faixas etárias mais avançadas – um padrão que a autora associa à forte relação cotidiana desse grupo com o ambiente natural.
O estudo também revelou uma questão preocupante do ponto de vista da saúde pública, visto que mais da metade dos entrevistados, tanto na zona urbana quanto na rural, afirmou não informar ao médico que faz uso de plantas medicinais, seja por acreditar que não há risco nisso, seja simplesmente por nunca terem sido questionados a respeito. A tese chama atenção, assim, para a necessidade de orientação adequada, já que nem toda planta considerada “medicinal” é segura para todos os usos.
No cruzamento entre saber tradicional e disponibilidade ecológica, um dos achados mais relevantes do terceiro artigo mostra que existe uma relação estatisticamente significativa entre o número de vezes que uma planta foi citada pelos raizeiros e o número de registros dessa espécie em herbários científicos – relação que se torna ainda mais forte quando consideradas apenas espécies nativas da região. Isso significa, segundo a pesquisa, que os raizeiros tendem a usar prioritariamente as plantas mais abundantes no ambiente ao seu redor, numa relação de uso de recurso que favorece tanto a conservação da vegetação quanto a valorização do conhecimento popular.
Ao todo, contabilizando os três artigos, a tese chegou a registrar 109 espécies botânicas com uso medicinal reconhecido pelos participantes da pesquisa, das quais 38 já constam na lista oficial de plantas de interesse do SUS. A maioria das espécies citadas (67%) é nativa da região, o que reforça o vínculo entre o conhecimento tradicional e a biodiversidade amazônica.
Relevância científica e social
Para a autora, o resgate desse conhecimento tem impacto que vai além da documentação acadêmica. A pesquisa argumenta que os fitoterápicos representam uma alternativa terapêutica de baixo custo, especialmente relevante para famílias em situação de vulnerabilidade econômica e para regiões com acesso limitado à rede básica de saúde. Ao mesmo tempo, o estudo defende que a validação científica desse saber popular pode fortalecer políticas públicas já existentes, como a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e as práticas integrativas oferecidas pelo próprio SUS.
A tese também conecta o tema a três Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas: o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), o ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis) e o ODS 15 (Vida Terrestre), argumentando que o uso consciente e informado de plantas medicinais pode conciliar cuidado com a saúde humana e conservação ambiental, especialmente em uma região de fronteira agrícola como o sul da Amazônia, onde a pressão sobre os ecossistemas nativos é constante.
Ainda que o foco da pesquisa esteja em Alta Floresta e Carlinda, a autora destaca que esse tipo de investigação ganha importância justamente pela escassez de estudos sistemáticos sobre etnobotânica nessa porção da Amazônia mato-grossense, historicamente menos estudada do que outras regiões do bioma. Segundo a tese, iniciativas como essa ajudam não apenas a preservar um patrimônio cultural em risco de se perder entre gerações, mas também a apontar caminhos para futuras pesquisas fitoquímicas e farmacológicas a partir de espécies já validadas pelo uso popular.
A pesquisa e sua banca
A tese foi orientada pelo professor doutor Eduardo Périco, com coorientação da professora doutora Carla Kauffmann, ambos da Univates. A banca examinadora que avaliou e aprovou a tese foi composta pelo próprio orientador, professor doutor Eduardo Périco, pela coorientadora, professora doutora Carla Kauffmann, além das professoras doutoras Lucélia Hoehne e Paula Lohmann, também da Univates, e da professora doutora Eliane Fraga da Silveira, da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). A pesquisa contou com apoio de bolsa concedida pelo Programa de Suporte à Pós-graduação de Instituições de Ensino Particulares, por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/Prosup) em parceria com a Univates.



