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INOVAÇÃO

CNJ leva três ferramentas de inteligência artificial do TJMT para tribunais de todo o país

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O que antes nascia para resolver um desafio dentro de um único tribunal agora pode atravessar fronteiras e chegar a todo o país. Três ferramentas de inteligência artificial desenvolvidas pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) (LexIA, Hannah e OmnIA) passam a integrar esse movimento de compartilhamento de soluções tecnológicas com o lançamento do Programa Conecta, realizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) nesta quinta-feira (20), durante o 6º FestLabs Cuiabá 2026. A iniciativa busca transformar experiências bem-sucedidas em ferramentas capazes de tornar o Judiciário brasileiro mais ágil, eficiente e conectado.
A iniciativa, vinculada ao Justiça 4.0, funciona como uma ponte entre os tribunais que desenvolvem tecnologias e aqueles que enfrentam necessidades semelhantes. Em vez de cada instituição começar um novo projeto do zero, o Conecta identifica soluções já consolidadas, oferece apoio técnico e metodológico para seu aprimoramento e cria caminhos para que possam ser utilizadas em todo o Poder Judiciário.
Telão exibe participação virtual do conselheiro do CNJ Rodrigo Badaró, que discursa ao lado das bandeiras nacional e estadual; público acompanha sentado no auditório.Para o conselheiro do CNJ Rodrigo Badaró, o novo modelo enfrenta um problema antigo: a dificuldade e a demora no compartilhamento de soluções tecnológicas entre os tribunais. “Até recentemente, o tribunal interessado em utilizar a solução desenvolvida por outro tribunal precisava percorrer um longo caminho, que podia levar meses ou até mais de um ano. E, na tecnologia, não temos tempo a perder”, afirmou.
Segundo ele, em alguns casos, desenvolver novamente uma ferramenta já existente parecia mais rápido do que tentar compartilhá-la, gerando duplicidade de esforços e desperdício de recursos. Com o Conecta, os tribunais interessados poderão conhecer as soluções disponíveis em uma página do CNJ e iniciar o processo de adoção sem a necessidade de acordos ou termos de cooperação específicos. “O conhecimento produzido por cada tribunal passa a servir a todo o Poder Judiciário. Essa é a vocação do programa, transformar boas experiências, com sinergia, em soluções coletivas e fazer da cooperação o principal motor da inovação”, destacou Badaró.
Compartilhar para avançar
Juiz Henrique Paiva discursa ao microfone, de óculos, terno e gravata pretos, diante de telão azul com a palavra "Conecta" ao fundo.O juiz auxiliar da Presidência do CNJ Henrique Paiva explicou que a nacionalização simplifica significativamente o acesso dos tribunais às tecnologias desenvolvidas por outras instituições. “Antes, muitos tribunais já entravam em contato com o TJMT pedindo a realização de um acordo para poder acessar as ferramentas aqui desenvolvidas. Com a nacionalização pelo Conecta, esse processo se torna desnecessário”, observou.
De acordo com o magistrado, nas soluções que possuem modelo descentralizado, o tribunal interessado poderá acessar a página do Conecta, preencher um formulário e passar por uma avaliação técnica das equipes do CNJ. Depois disso, terá acesso à documentação necessária para implantar a ferramenta em sua própria infraestrutura. “Com isso, o tribunal mantém o controle do desenvolvimento daquela ferramenta, ao mesmo tempo em que passa a receber contribuições importantes dos demais tribunais para a sua evolução”, explicou.
O magistrado Henrique Paiva ressaltou a qualidade das três soluções desenvolvidas pelo TJMT e o impacto de disponibilizá-las nacionalmente. “São ferramentas extremamente bem desenvolvidas, que respeitam todos os normativos do CNJ e as leis em vigor a respeito da utilização da inteligência artificial. Representam um trabalho de excelência e de muita qualidade das equipes técnicas do TJMT, lideradas pelo desembargador Saboia”.
Juíza Luciana discursa ao microfone, de blazer azul-claro e colar étnico, gesticula com a mão direita diante de telão azul.A juíza auxiliar da Corregedoria Nacional da Justiça Luciana Dória também chamou a atenção para a importância de dar visibilidade às tecnologias desenvolvidas nos tribunais. Ela participou de inspeções que ajudaram a identificar soluções posteriormente apresentadas ao Conecta. “Não é só importante trazer essas soluções para nacionalizar. É importante que a gente conheça e dê visibilidade a elas. O mais importante hoje não é só disponibilizar, mas saber que o colega do tribunal vizinho, o tribunal parceiro, já pode estar desenvolvendo soluções que são necessárias e que você pode adotar no seu tribunal”, afirmou, incentivando magistrados e servidores a acompanharem a página e as publicações do Programa Conecta.
Três soluções de Mato Grosso
O desembargador Luiz Octávio Oliveira Saboia, coordenador do Comitê de Governança e Gestão de Inteligência Artificial do Poder Judiciário de Mato Grosso, apresentou as três ferramentas do TJMT incluídas no processo de nacionalização: OmnIA, Hannah e LexIA. “A intenção é apresentar as três ferramentas que estão sendo nacionalizadas e entregues ao Conselho Nacional de Justiça para que todos os tribunais possam fazer a adesão. O Tribunal de Justiça de Mato Grosso está à disposição de todos para colaborar na evolução da Justiça brasileira”, afirmou.
A primeira delas foi a OmnIA, voltada à gestão das unidades judiciais por meio de dados e inteligência artificial. A ferramenta permite que magistrados e servidores interajam com informações e painéis de gestão de forma mais simples, recebendo apoio para compreender a situação da unidade e identificar caminhos para melhorar seus indicadores. “Em vez de ter apenas um painel frio de BI, o usuário pode conversar com seus dados e receber possibilidades de como atuar naquela unidade para alcançar os indicadores e entregar um resultado efetivo ao cidadão no menor tempo possível, de forma mais eficiente”, explicou Saboia.
Em Mato Grosso, a OmnIA já registra mais de 20 mil conversas e conta com cerca de 350 usuários ativos. Segundo o desembargador, após a implantação da ferramenta em unidades judiciais, foi registrado avanço de 42 posições no ranking de produtividade em alguns casos.
O gestor de Tecnologia de Projetos de Inovação Uiller Prado, que participou desde o desenvolvimento da solução, destacou a importância de unir tecnologia e resultados concretos. “É uma alegria muito grande poder chegar aonde nós chegamos. É um time muito bom e temos a oportunidade de estar muito próximos do negócio judiciário e da gestão de produtividade. Quando a gente consegue somar tecnologia com entrega de resultados reais, os resultados aparecem. É uma oportunidade muito grande para o Tribunal de Justiça poder nacionalizar não uma, mas três ferramentas”, afirmou.
Outra solução apresentada foi a Hannah, desenvolvida para auxiliar especialmente as vice-presidências dos tribunais na análise de recursos especiais e extraordinários, uma atividade que envolve grande volume processual. O desembargador Saboia explicou que a ferramenta nasceu para enfrentar uma dificuldade concreta. “A Hannah vem para resolver uma dor das vice-presidências. Essa análise era feita de modo manual e gerava uma carga muito grande”.
Segundo os dados apresentados, a ferramenta reduziu em 65,9% o tempo de trabalho na elaboração de minutas e já analisou quase 8 mil processos. O tempo médio de trabalho em determinadas etapas, que chegava a quase 10 dias, passou a ser, em média, de um dia de trabalho. “O cidadão quer que o seu recurso especial seja admitido e analisado o mais rápido possível. Esse é o nosso papel no Poder Judiciário: desenvolver ferramentas que possam entregar soluções e resultados eficazes ao cidadão”, ressaltou o desembargador.
A terceira tecnologia é a LexIA, plataforma de inteligência artificial generativa voltada ao apoio a magistrados, gabinetes e, futuramente, também às secretarias. A ferramenta trabalha com diferentes modelos de IA e busca garantir governança, controle e segurança dos dados, além de auxiliar na elaboração de minutas, decisões, votos e sentenças.
De acordo com Saboia, a LexIA já soma mais de 454 mil processos atendidos, 1.489 usuários cadastrados e cerca de 1.300 usuários ativos. Atualmente, são realizadas entre 6 mil e 8 mil interações diárias, com picos que já chegaram a 9 mil requisições em um único dia. “É uma plataforma alinhada à necessidade de termos controle e governança sobre os nossos dados, utilizando a inteligência artificial como ferramenta de apoio à atividade judicial”, pontuou.
Em entrevista, Saboia afirmou que o reconhecimento do CNJ representa satisfação e, ao mesmo tempo, um incentivo para novas iniciativas. “O Conecta reconheceu as três iniciativas de Mato Grosso, LexIA, Hannah e OmnIA , para que sejam compartilhadas com todo o Brasil. Para o Tribunal de Justiça de Mato Grosso e para o nosso Comitê de Governança e Gestão de Inteligência Artificial, é uma satisfação e um incentivo para que continuemos evoluindo, construindo novas soluções e contribuindo para que o Judiciário se torne mais efetivo, mais célere e mais acessível ao cidadão.”
 
Inovação que se multiplica
Juiz Jeremias fala próximo ao microfone, de óculos e blazer azul-marinho, com fundo em tons de roxo e azul iluminado.O juiz Jeremias Melo, diretor do Núcleo de Inovação da Justiça da Paraíba e membro do Programa Conecta do Justiça 4.0, classificou o lançamento como um momento marcante para a inovação colaborativa no Judiciário. “É um momento de muita alegria para o Conselho Nacional de Justiça e para o Programa Conecta, especialmente. Esse ambiente de inovação aberta nos trouxe a preocupação de desenvolver em colaboração. A gente gastava o mesmo tempo, energia e dinheiro para resolver os mesmos problemas”, afirmou.
Para ele, o lançamento coletivo das iniciativas representa uma mudança de perspectiva. “O Conecta vem para melhorar do individual para o coletivo, para todo o Judiciário. Hoje é um dia que marca o lançamento coletivo de quatro iniciativas de inteligência artificial generativa, com impacto muito significativo, para sairmos da criatividade local e alcançarmos uma transformação do Poder Judiciário”.
Jeremias lembrou que conheceu as iniciativas de inteligência artificial do TJMT no início deste ano e destacou a maturidade da governança adotada pelo Tribunal. “Percebemos que eles têm uma governança de IA muito potente, inclusive sugerida como modelo para o Brasil. O desafio de apresentar essas iniciativas para o ambiente nacional foi encarado com sucesso e entregue hoje em pouco tempo, em apenas seis meses”.
Na avaliação dele, o compartilhamento gera ganhos para todos. “É um jogo de ganha-ganha. O tribunal não precisa fazer tudo do zero, não precisa gastar tempo, dinheiro e energia para desenvolver uma solução que já existe. Ele pode se integrar, colaborar e ajudar a desenvolver e melhorar o sistema. E isso rapidamente tem retorno para a sociedade, porque conseguimos entregar mais serviço em menos tempo.”
Trabalho de bastidores
O gestor do Núcleo de Inteligência Artificial do TJMT, Rafael Nogueira destacou o esforço das equipes para transformar as três soluções locais em ferramentas aptas a serem compartilhadas nacionalmente. “A satisfação é imensa, até pelo fato de que o processo foi bastante trabalhoso. Essa conversa começou no final de janeiro, início de fevereiro, e, de lá para cá tivemos sessões semanais e a intermediação de três times técnicos”, contou.
Rafael ressaltou a dimensão da contribuição do Tribunal para o Programa Conecta. “São três soluções distintas sendo nacionalizadas. Até então, o CNJ tinha 10 soluções ao todo. Só o TJ de Mato Grosso está expandindo em 30% o que já havia. Foi um processo árduo, mas é muito bom ver essa entrega acontecendo. É bastante satisfatório”.
O lançamento também contou com a apresentação da LiA3R, plataforma de inteligência artificial do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), outra solução incluída no movimento de compartilhamento nacional.
O diretor da Divisão de Inovação e Inteligência Artificial do TRF3, Fábio Collado apresentou números que demonstram a utilização crescente da ferramenta, que já conta com mais de 3 mil usuários, alcançou mais de 100 mil processos judiciais e contribuiu para a produção de mais de 2 milhões de peças processuais. “Não tem obrigatoriedade. É um crescimento voluntário e exponencial”, destacou. Segundo ele, a plataforma foi pensada para que seus próprios usuários também contribuam para sua evolução. “Os usuários da LiA não apenas consomem essa ferramenta, eles constroem sobre ela”.
Para Collado, é justamente nesse ponto que a nacionalização ganha uma dimensão ainda maior. “A nacionalização deixa de ser só uma questão de distribuição e passa a ser a própria evolução do sistema. Quanto mais tribunais participam, mais bases de conhecimento, agentes e soluções podem ser construídos”.
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