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Do Oz ao hoje: o “ser” espantalho

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Quem nunca assistiu a O Mágico de Oz ou ouviu Over the Rainbow? Por trás da fantasia que atravessou gerações, existe uma pergunta cada vez mais atual: quanto de nós estamos dispostos a abandonar para sermos aceitos?

Vivemos uma época contraditória. Nunca se falou tanto em liberdade, autenticidade e protagonismo. Ao mesmo tempo, nunca pareceu tão necessário caber. Caber nas relações, nos grupos, nas redes sociais, no trabalho e, principalmente, nas expectativas do outro.

E, para caber, muita gente diminui a si mesma. É aí que encontro o Espantalho.

Na estrada de tijolos amarelos, ele acredita não possuir cérebro e procura o Mágico de Oz para receber aquilo que imagina lhe faltar. A ironia é que, durante a jornada, ele pensa, encontra soluções e ajuda os companheiros. Seu problema não é falta de inteligência, mas não reconhecer aquilo que já possui.

Quantos “espantalhos” circulam entre nós?

Pessoas inteligentes que deixaram de pensar por si mesmas. Gente que apagou características próprias para agradar. Que mudou o jeito de vestir, falar, sonhar, amar e até de se posicionar porque alguém determinou qual versão dela seria mais conveniente.

A psicanalista Margaret Mahler, ao estudar o processo de separação-individuação, abordou a construção da identidade e o reconhecimento de si como alguém diferenciado do outro. Embora sua teoria esteja ligada às primeiras fases do desenvolvimento, ela deixa uma provocação também para a vida adulta: onde termina o desejo do outro e começa o nosso?

Talvez muitos adultos ainda estejam tentando descobrir.

Existe uma diferença enorme entre compartilhar a vida com alguém e entregar a essa pessoa o direito de definir quem devemos ser. Amar não deveria significar desaparecer. Pertencer não deveria exigir a renúncia da própria identidade.

O Espantalho contemporâneo não está parado em uma plantação. Ele trabalha, ama, sorri, publica fotografias e aparentemente pertence. Mas pode existir, por trás dessa aparência, alguém tão ocupado em ser aceito que já não sabe mais quem é.

O Leão buscava coragem. O Homem de Lata queria um coração. Dorothy desejava voltar para casa. Todos procuravam fora algo que precisavam reconhecer dentro de si.

E nós fazemos diferente?

Quantas vezes perdemos a coragem para não perder alguém? Quantas vezes sacrificamos o amor-próprio em nome do amor? Quantas vezes silenciamos o que pensamos porque discordar poderia desagradar?

Há relações que não querem companhia, querem obediência. Há ambientes que chamam de pertencimento aquilo que, na verdade, é submissão. E há pessoas que dizem amar você, desde que continue sendo exatamente aquilo que elas esperam.

Isso não é pertencimento. É desaparecimento.

Nenhum Mágico de Oz devolverá a identidade de quem passou anos pedindo autorização para existir. O caminho de volta exige consciência, limites e coragem para frustrar expectativas que nunca deveriam ter definido quem somos.

Talvez “não há lugar como o nosso lar” seja muito mais do que uma frase sobre voltar para casa. Nosso primeiro lar somos nós.

E, se para permanecer ao lado de alguém você precisa abandonar esse lar, talvez seja hora de perguntar: quem está vivendo a sua vida enquanto você tenta caber na vida dos outros?

*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, especialista em Psicanálise e graduanda em Psicologia.

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