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O silêncio que muitas mulheres carregam no próprio corpo

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Tem um sofrimento que vive escondido. Não aparece em conversa de roda, não é assunto de almoço de família, não ganha espaço nem entre amigas próximas. Ele simplesmente vai sendo carregado, dia após dia, em silêncio. A mulher aprende a colocar um absorvente antes de sair, descobre mentalmente onde fica o banheiro de cada lugar que frequenta, para de rir com vontade, deixa a academia de lado, abre mão da viagem que tanto queria fazer. E vai vivendo assim, reorganizando a própria vida em torno de algo que nunca deveria ter se tornado o centro dela.

A incontinência urinária ainda é tratada como se fosse uma consequência inevitável de ter filhos, de envelhecer ou simplesmente de ser mulher. Como se perder urina fosse um preço a pagar. Não é. E essa ideia precisa ser desconstruída com urgência.

Como ginecologista, eu vejo isso de perto. Pacientes que chegam ao consultório depois de anos convivendo com o problema, acreditando, de verdade, que não havia saída. Que aquilo era a vida delas agora. O que mais me marca não é o sintoma em si, é a forma como elas chegam: diminuídas, envergonhadas, quase se desculpando por estar ali. Como se pedir ajuda para algo que afeta profundamente a qualidade de vida fosse exagero.

A perda de urina pode acontecer de formas diferentes. Tem mulher que sente o escape ao espirrar, tossir, gargalhar ou pular. Tem quem sinta aquela urgência repentina e não consiga chegar ao banheiro a tempo. Tem ainda quem viva os dois juntos. Mas independente de como acontece, o estrago emocional costuma ir muito além do que qualquer número ou exame consegue medir. A ansiedade antes de sair de casa. A vergonha do próprio corpo. O isolamento que vai chegando devagar, quase sem ser percebido.

Os fatores que contribuem para isso são muitos: gestação, parto, menopausa, envelhecimento dos tecidos, obesidade, constipação, tabagismo, doenças crônicas. Mas um ponto que eu sempre reforço: mulheres jovens também têm incontinência. Não existe uma fase da vida em que esse problema “faz sentido” aparecer e outra em que não faz. Ele pode chegar a qualquer momento. E em qualquer momento é válido buscar ajuda.

O que não é válido, e precisa ser dito com todas as letras, é usar absorvente diário como se fosse solução. Adaptar a rotina ao sintoma não resolve nada, apenas posterga. Hoje existem caminhos reais de tratamento, e eles dependem de cada caso. Às vezes mudanças de hábito e fisioterapia pélvica já mudam completamente o quadro. Em outros casos, procedimentos mais específicos são o caminho. O que importa é que existe saída, e ela começa com uma consulta.

A saúde íntima da mulher ainda vive cercada de silêncio, e esse silêncio tem um custo alto. Quando uma mulher acredita que precisa sofrer calada, ela não busca cuidado. Ela simplesmente vai abrindo mão, aos poucos, de partes da própria vida.

Nenhuma mulher deveria deixar de rir com vontade por medo de um escape. Não deveria deixar de malhar, de viajar, de viver o próprio corpo com leveza. Isso não é frescura, não é fraqueza, não é falta de cuidado. É uma condição de saúde. Merece atenção, merece diagnóstico, merece tratamento. E merece, acima de tudo, ser falada sem vergonha.

Bruna Ghetti- ginecologista, especialista em mulheres 40+

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