quinta-feira, 29 outubro, 2026

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TOMADA DE CONTAS

STJ aponta risco de ocultação de dinheiro e destruição de provas ao mandar prender seis em operação no TCE

Patrícia Neves e Renato Ferreira

O risco de continuidade dos pagamentos suspeitos, ocultação de patrimônio e destruição ou manipulação de provas fundamentou a decisão do ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que decretou a prisão preventiva de seis investigados na Operação Tomada de Contas, deflagrada nesta quinta-feira (29), em Cuiabá. Entre eles está o presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), Sérgio Ricardo de Almeida, apontado pela Polícia Federal como responsável por comandar a estrutura investigada.

Na decisão, o ministro afirma que os seis não seriam apenas destinatários dos recursos. Segundo ele, os investigados “integram o núcleo operacional da organização investigada”, com atribuições no comando, na articulação jurídica e financeira, nos saques e no transporte do dinheiro.

Além de Sérgio Ricardo, tiveram a prisão preventiva decretada Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, Gustavo Fernandes da Silva, Felipe José Glinke, Roseli Loss e Adriangelo Barros Antunes. Conforme a decisão, a divisão de tarefas, a disponibilidade financeira e a capacidade de adaptar os procedimentos após ações de fiscalização tornavam insuficientes medidas alternativas à prisão.

A investigação identificou R$ 75.858.726,27 em movimentações consideradas suspeitas em uma análise bancária limitada ao período de 1º de janeiro a 22 de outubro de 2025. O documento também menciona medida de sequestro patrimonial de aproximadamente R$ 145 milhões e ressalta que a extensão dos fatos ainda não foi completamente identificada.

Como funcionaria o esquema

A apuração começou com uma denúncia de possível favorecimento de empresas contratadas pelo TCE. A suspeita era de que a Presidência utilizasse a suspensão e a retomada de pagamentos para exigir a devolução de parte dos recursos recebidos por fornecedores.

Com o avanço das diligências, os investigadores também identificaram uma suposta “folha paralela”. Conselheiros e servidores teriam recebido pagamentos diretamente da conta do tribunal, abastecida pelos duodécimos estaduais, mas fora da folha normal e, em regra, pelo canal destinado a fornecedores. Parte dos recursos seria posteriormente convertida em dinheiro vivo, mediante saques e movimentações realizadas pelos operadores.

Para Og Fernandes, a liberdade dos seis representava risco de manutenção desses fluxos, ocultação de bens, interferência sobre testemunhas e coordenação entre os integrantes do grupo.

Sérgio Ricardo e o poder de comando

Sérgio Ricardo é descrito como o responsável pelo comando da estrutura. Na condição de presidente do TCE, tinha poder para autorizar contratos, editar portarias, nomear ocupantes de cargos estratégicos e controlar setores envolvidos na emissão dos pagamentos investigados.

A PF identificou R$ 15.442.211,65 em créditos destinados ao conselheiro em menos de dez meses. No mesmo período, foram registrados 150 saques em espécie, que somaram R$ 15.645.500.

Segundo a decisão, a influência sobre servidores e contratados criava risco concreto de continuidade das práticas e de interferência na produção de provas. O ministro considerou que a estrutura investigada dependia diretamente do poder de comando exercido pelo presidente.

Grhegory e a articulação jurídica e financeira

Consultor jurídico-geral do TCE, Grhegory Paiva Pires Moreira Maia é apontado como o maior destinatário individual dos pagamentos investigados e como articulador jurídico e financeiro do suposto esquema.

Segundo a investigação, ele recebeu R$ 32.310.120,43. Desse total, R$ 31.644.860,90 foram creditados por meio de 179 ordens bancárias avulsas, distribuídas em 12 contas de nove instituições financeiras.

Imagens analisadas pela PF também mostram Grhegory acondicionando blocos de dinheiro em uma mochila após a preparação do numerário por uma funcionária da agência. A investigação aponta ainda suspeitas de utilização de empresas para receber aportes e ocultar valores.

Ao justificar a prisão, Og Fernandes destacou a dimensão das movimentações, a utilização simultânea de diferentes contas e o risco de continuidade da lavagem de dinheiro e de interferência nas provas. O consultor também atuou em processos no Supremo Tribunal Federal sobre verbas indenizatórias destinadas a membros do tribunal.

Gustavo e a conversão dos recursos em dinheiro vivo

Gustavo Fernandes da Silva, assistente jurídico comissionado e subordinado a Grhegory, é descrito como operador financeiro ligado à circulação dos valores e à conversão dos recursos em espécie.

A investigação atribui a ele o recebimento de R$ 15.892.850,54, dos quais R$ 15.645.651,48 por meio de 144 ordens avulsas, distribuídas em oito contas de sete instituições financeiras. Imagens da agência bancária registraram sua participação em operações consideradas suspeitas.

Para o ministro, o afastamento do tribunal não impediria a continuidade das movimentações por aplicativos e outros meios eletrônicos. A relação direta com funcionárias da agência, consideradas testemunhas relevantes, também foi apontada como fator de risco à investigação.

Felipe e os cuidados para evitar observação

Assessor jurídico da Presidência, Felipe José Glinke teria recebido R$ 9.932.818,72, sendo R$ 9.670.318,66 em 80 ordens avulsas, distribuídas em oito contas de seis instituições financeiras.

A decisão destaca um episódio de 23 de setembro de 2025, quando ele teria sinalizado para retardar uma operação ao perceber a presença de uma terceira pessoa próxima aos caixas. Conforme a interpretação dos investigadores, Felipe retornou para receber o dinheiro depois que essa pessoa deixou o local.

Em outro registro, de 7 de outubro daquele ano, ele teria assinado um documento aparentemente em branco, recebido dinheiro e devolvido parte à funcionária. A quantia aparentemente foi anotada em um caderno mantido na gaveta da atendente.

Assim como no caso de Gustavo, o ministro apontou a possibilidade de movimentações remotas e de interferência sobre testemunhas para justificar a prisão preventiva.

Roseli e a operação dos saques

Chefe de gabinete de Sérgio Ricardo desde janeiro de 2024, Roseli Loss é descrita como pessoa de confiança do presidente e principal operadora dos saques relacionados ao núcleo investigado.

Segundo a decisão, as imagens registraram retiradas sob sua responsabilidade que somaram R$ 3.520.600. Em seis oportunidades, o dinheiro teria sido entregue a Adriangelo Barros Antunes.

Roseli tornou-se procuradora bancária de Sérgio Ricardo em outubro de 2025, mas, conforme a investigação, já realizava saques em contas vinculadas a ele desde 2024. O documento cita retiradas de R$ 200 mil em fevereiro e R$ 340 mil em abril daquele ano.

O ministro apontou risco à coleta de provas orais e documentais, considerando a relação de confiança com o presidente, a atuação permanente nas operações e o acesso às contas investigadas.

Adriangelo e o transporte do dinheiro

Secretário executivo de comissão permanente e ex-cunhado de Sérgio Ricardo, Adriangelo Barros Antunes é apontado como responsável pelo transporte e pela circulação física de parte dos valores sacados.

Em diligência realizada em 14 de outubro de 2025, policiais observaram uma pessoa com características compatíveis com as dele entrar no posto bancário com uma mochila vazia e sair com ela aparentemente carregada, seguindo para as dependências do TCE.

A decisão registra que o Ministério Público Federal reconheceu limitações no grau de certeza das imagens, mas considerou haver convergência com os demais elementos reunidos.

Adriangelo também teria recebido cerca de R$ 2.280.724,93 a partir de setembro de 2025. Parte dos recursos, segundo a investigação, foi destinada à esposa, à filha e a uma terceira pessoa não identificada, em movimentações consideradas indício de tentativa de ocultação.

Mudança de comportamento após diligência

Um dos pontos centrais da decisão é a alteração das movimentações depois que a presença de policiais foi identificada no TCE, em outubro de 2025. Segundo o documento, agentes foram abordados pela segurança do órgão e, na sequência, os grandes saques diminuíram temporariamente.

A investigação aponta que houve acúmulo de valores em contas, aplicações financeiras e posterior retomada dos saques, em maio de 2026. Para Og Fernandes, essa sequência indica capacidade de adaptação para dificultar a fiscalização.

O Ministério Público Federal havia defendido a aplicação de medidas cautelares diversas da prisão. O ministro, porém, acolheu o pedido da PF para prender os seis, por entender que as restrições alternativas não seriam suficientes para interromper a dinâmica descrita e preservar as provas. As condutas atribuídas aos investigados permanecem sob apuração.

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