A Operação Tomada de Contas, deflagrada nesta quinta-feira (29), pela Polícia Federal, revelou um esquema milionário de pagamentos irregulares no Tribunal de Contas do Estado (TCE), envolvendo desde a cúpula da instituição até servidores de setores estratégicos. Ao todo, 21 pessoas são investigadas, sendo que seis tiveram a prisão preventiva decretada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Segundo a investigação, o grupo teria utilizado contratos com empresas fornecedoras e ordens extraordinárias de pagamento para movimentar recursos públicos, alimentar uma espécie de folha de pagamento paralela e realizar saques em dinheiro vivo.
A investigação identificou movimentações consideradas suspeitas de R$ 75,8 milhões em 2025. A decisão do ministro Og Fernandes também determinou o afastamento de outros 15 investigados, além de restrições de contato, acesso ao Tribunal e viagens ao exterior.
De acordo com a Polícia Federal, o TCE suspendeu contratos em 2024 sob a justificativa de restrições orçamentárias. Apesar disso, determinadas empresas continuaram recebendo pagamentos, em alguns casos com aumentos de até 327%.
A suspeita é de que parte dos recursos tenha sido direcionada a integrantes do tribunal por meio de pagamentos extraordinários e posteriormente sacada em espécie ou distribuída entre contas bancárias.
Veja alvos e medidas:
Presidente do TCE, Sérgio Ricardo é apontado como principal articulador do suposto esquema. Teria utilizado sua autoridade sobre contratos, nomeações e pagamentos para viabilizar as operações. Recebeu R$ 15,4 milhões em créditos bancários e realizou saques que somaram R$ 15,6 milhões.
Já Grhegory Paiva Pires Moreira Maia é consultor jurídico-chefe do Tribunal e é suspeito de atuar na organização financeira das movimentações. Recebeu R$ 32,3 milhões, maior valor individual identificado entre os investigados, e foi flagrado movimentando dinheiro em espécie.
Gustavo Fernandes da Silva é assistente jurídico comissionado e subordinado a Grhegory e teria participado da movimentação dos recursos por meio de diversas contas bancárias. Recebeu R$ 15,8 milhões, incluindo pagamentos extraordinários.
Felipe José Glinke é assessor jurídico da Presidência. O servidor é investigado por receber e movimentar valores fora da remuneração regular. Foram identificados R$ 9,9 milhões em créditos, além de operações com dinheiro vivo.
Também foi presa na operação Roseli Loss, chefe de gabinete da Presidência. Ela é apontada como uma das principais responsáveis pelos saques em espécie. A investigação identificou retiradas de R$ 3,5 milhões e entregas de dinheiro a Adriangelo Barros Antunes.
Adriangelo é secretário executivo de comissão permanente e ex-cunhado de Sérgio Ricardo e teria atuado no transporte de dinheiro sacado das contas. Recebeu R$ 2,2 milhões em créditos bancários e foi identificado em movimentações consideradas suspeitas.
Investigados afastados das funções
Entre os afastados do cargo estão o conselheiro e corregedor-geral do TCE, Guilherme Maluf, que recebeu R$ 10,6 milhões, sendo R$ 9,7 milhões por ordens extraordinárias. Também teria participado da supervisão de medidas administrativas relacionadas à suspensão de contratos.
O segundo conselheiro afastado é José Carlos Novelli, que recebeu R$ 8,8 milhões, dos quais R$ 7,3 milhões por pagamentos extraordinários. A investigação identificou repasses em lotes semelhantes aos destinados a pessoas de seu círculo familiar.
O terceiro conselheiro afastado é Alisson Alencar, ex-procurador de Contas que assumiu o cargo de conselheiro em dezembro de 2025. Segundo a Polícia Federal, ele recebeu R$ 8,1 milhões.
Também foi determinado o afastamento do conselheiro aposentado Valter Albano, que continua atuando no TCE em atividades de comissão permanente. Ele recebeu R$ 6,6 milhões, incluindo R$ 4,9 milhões em ordens extraordinárias.
A lista dos investigados tem ainda Jocimauro Bento do Carmo, técnico de controle público ligado à comissão de Novelli que recebeu R$ 3 milhões, dos quais R$ 1,8 milhão por pagamentos extraordinários.
Já Eneias Viegas da Silva é secretário executivo de Gestão de Pessoas e recebeu R$ 2,8 milhões. Parte dos valores teria sido paga mensalmente por mecanismos utilizados para pagamentos a fornecedores.
Carlos Romeu Rodrigues Medeiros é consultor técnico-jurídico ligado aos gabinetes de Valter Albano e Alisson Carvalho e recebeu R$ 2,3 milhões, incluindo R$ 1,4 milhão em ordens extraordinárias.
Edson Luiz Ribeiro de Oliveira é coordenador de execução orçamentária e contábil e contador-chefe do TCE, recebeu R$ 2,1 milhões. Ele é investigado por movimentações extraordinárias relacionadas ao setor financeiro.
Maurício Marques Júnior é secretário executivo de Orçamento, Finanças e Contabilidade e recebeu R$ 1,7 milhão, incluindo repasses mensais de aproximadamente R$ 125 mil por canais destinados a fornecedores.
Adjair Roque de Arruda é auditor fiscal cedido ao TCE e secretário executivo de Planejamento. Segundo a Polícia Federal, ele recebeu R$ 1,5 milhão, dos quais R$ 1,4 milhão fora da folha regular.
Vitor Turri Romano é genro de Novelli e chefe de gabinete de comissão permanente, recebeu R$ 1 milhão. Os pagamentos teriam ocorrido em lotes semelhantes aos destinados ao sogro.
Carlos Alexandre Pereira é auditor público externo e secretário de Controle Interno e recebeu R$ 958 mil, incluindo valores fora da folha. A investigação questiona os pagamentos recebidos por quem tinha atribuições de fiscalização interna.
Olavo Lage Filho é secretário de Tecnologia da Informação e secretário executivo de comissão permanente e recebeu R$ 888 mil, incluindo pagamentos pelo canal de fornecedores. Também tinha acesso privilegiado aos sistemas do tribunal.
Carlos Felipe Oliveira Almeida é assistente técnico-financeiro da área de orçamento e contabilidade e recebeu R$ 673 mil em 35 transações, incluindo ordens extraordinárias mensais.
O último da lista de investigados é Márcio Antônio Silvério, assessor técnico-jurídico e parente por afinidade de Novelli. Ele recebeu pagamentos mensais de que variaram entre R$ 100 mil e R$ 120 mil. A investigação apura se sua conta foi utilizada para repasses a terceiros.
















