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JULGAMENTO HOJE

“Vi meu pai urrando de dor após levar sete tiros”, diz filha de Renato Nery antes de júri

Nickolly Vilela e Patrícia Neves

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Em meio à expectativa pelo julgamento do primeiro acusado de participar do assassinato do advogado Renato Nery, a filha da vítima, Lívia Moreira Gomes Nery, afirmou nesta quarta-feira (15) que espera que a Justiça seja feita e que a condenação dos envolvidos represente o início do encerramento de um capítulo marcado por medo e insegurança para a família.

Lívia falou com a imprensa em frente ao Fórum de Cuiabá, onde ocorrerá  o júri popular de Alex Roberto de Queiroz Silva, apontado pelo Ministério Público como o autor dos disparos que mataram o advogado. Ela será uma das testemunhas de acusação.

“A gente espera que a Justiça seja feita. Esse é apenas o primeiro júri. Nós acreditamos que serão vários, porque há vários envolvidos. Na semana passada completaram dois anos da morte do meu pai e, de alguma forma, a Justiça está começando a ser feita”, afirmou.

Apesar da expectativa, Lívia disse que a família encara o julgamento com apreensão. “Estamos muito apreensivos. É o primeiro júri e a gente nunca sabe qual será o desenrolar de um julgamento. Espero que tudo ocorra bem.”

Ao relembrar o crime, ocorrido em plena luz do dia na Avenida Fernando Corrêa da Costa, em Cuiabá, ela destacou o impacto causado pela execução.

“Foi um crime que chocou a sociedade. Meu pai estava indo trabalhar quando levou sete tiros na cabeça, em uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Isso mostra o quanto estamos inseguros.”

Segundo a filha do advogado, não há dúvidas de que a motivação do homicídio foi a disputa judicial por uma propriedade rural, conforme apontam as investigações da Polícia Civil.

“Eu acredito que esse realmente foi o motivo. Os autos mostram isso. Foi uma disputa judicial que resultou nesse crime.”

Lívia também relembrou os meses de tensão vividos pela família após a execução. Segundo ela, nem mesmo a polícia conseguia garantir que os familiares estivessem fora de risco.

“Quando fomos prestar depoimento, perguntei ao delegado se estávamos seguros. Ele respondeu que não sabia. Nós não sabíamos o que estava acontecendo e se os filhos também poderiam ser alvo por causa dos processos do meu pai.”

Ela contou que a família permaneceu por meses sob escolta e convivendo com o medo.

“Foi desesperador. Houve muita especulação, muitas pessoas envolvidas e nós não sabíamos o que podia acontecer. Hoje essa insegurança diminuiu, mas ainda não posso dizer que me sinto segura.”

Lívia relembrou os instantes após o atentado.

“Nós não vimos apenas as imagens das câmeras. Nós estávamos lá. Eu fui na ambulância com o meu pai. Vi ele urrando de dor, sangrando. São cenas que jamais vou esquecer. Parece que aconteceu ontem.”

Ela afirmou que continua trabalhando no escritório fundado pelo pai e, diariamente, passa pelo local onde ele foi assassinado.

“É muito difícil falar em vida normal. Todos os dias eu passo exatamente onde meu pai foi morto.”

Lívia também comentou o fato de policiais militares figurarem entre os denunciados pelo Ministério Público.

“A polícia deveria nos trazer segurança, mas foram policiais que participaram da execução do meu pai. Ao mesmo tempo, foi a Polícia Civil que conseguiu esclarecer o caso. Não posso culpar toda a instituição, mas pessoas que estavam dentro dela.”

Ela destacou que as investigações revelaram uma organização criminosa muito maior do que a família imaginava inicialmente.

“A gente sempre imagina um mandante e um executor. Nunca que haveria tantas pessoas envolvidas. Quando descobrimos a participação de policiais, foi muito assustador. Mas saber que a investigação conseguiu chegar aos responsáveis também trouxe um certo alívio.”

Lívia ainda rebateu a possibilidade de o réu assumir sozinho a autoria do crime.

“Ele não fez esse crime sozinho. Estamos falando de um caseiro que não tinha nenhuma razão para matar um advogado por causa de uma disputa agrária. As investigações mostraram que havia toda uma organização por trás da execução.”

Segundo denúncia do Ministério Público, o assassinato de Renato Nery foi encomendado por R$ 200 mil em razão de uma disputa judicial por terras. Além de Alex Roberto, outras cinco pessoas, entre elas um casal apontado como mandante e três policiais militares, também respondem pelo homicídio e deverão ser julgadas pelo Tribunal do Júri.

Denunciados

 César Jorge Sechi e Julinere Goulart Bastos são apontados como os mandantes do assassinato de Renato Nery. O caseiro Alex Roberto de Queiroz Silva é acusado de ter executado os disparos que mataram o advogado.

De acordo com a denúncia, o sargento da Polícia Militar Heron Teixeira Pena Vieira atuou como intermediador, sendo responsável por receber o dinheiro, a arma e contratar Alex para executar o crime.

O policial militar Ícaro Nathan Santos Ferreira é apontado como responsável por fornecer a arma utilizada no homicídio e facilitar a transferência dos pagamentos. Já o PM Jackson Pereira Barbosa teria coordenado a execução e realizado pagamentos parciais aos envolvidos.

Além deles, os policiais militares Wailson Alessandro Medeiros Ramos, Wekcerlley Benevides de Oliveira, Leandro Cardoso e Jorge Rodrigo Martins são investigados por, supostamente, forjarem um confronto policial com o objetivo de dar aparência de legalidade à apreensão da arma utilizada no assassinato.

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